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  • Sérgio Martins

25 anos de um clássico da soul music

Atualizado: Abr 2


O Palace Theater é uma antiga e luxuosa casa de espetáculos de Albany, capital do estado de Nova York. Construída inicialmente para abrigar as produções do RKO, um dos maiores estúdios de cinema de Hollywood, ela foi comprada pela prefeitura da cidade no final de 1969 e passou por duas grandes reformas até se transformar num disputado ponto de entretenimento. Um desses eventos foi a apresentação do cantor Maxwell, em junho de 2014. O cantor tem uma carreira irregular: ponta de lança da geração de revisionistas da soul music ao lado de Erykah Badu e D'Angelo, ele passou anos longe dos holofotes por causa de uma depressão. Quando subiu ao palco do Palace, fazia cinco anos que não lançava um novo disco. Até suas performances são esporádicas. O auto exílio do soulman, contudo, não impediu que o público lotasse os 2 844 lugares do teatro. E que cantasse, gritasse, dançasse e soltasse seus "Maxwell, eu tô aqui!" quando ele reclamava da falta de um novo amor. O porquê dessa adoração irrestrita tem nome: Maxwell's Urban Hang Suite, disco de estreia do cantor, que hoje completa um quarto de século de existência.

No mundo da crítica musical, exige-se cautela antes de classificar um disco como "clássico" ou "obra-prima". Mas Maxwell's Urban Hang Suite merece todos os predicados. Criou o neo-soul, um subgênero da música negra, que foi professado não apenas pelos já citados Erykah e D'Angelo, mas também pela geração seguinte, representada por Bilal e Anthony Hamilton. No Brasil, um dos discípulos mais aguerridos dessa sonoridade foi Max de Castro, cujo álbum Samba Raro, de 1999, traz semelhanças com as guitarras e o canto doce de Maxwell. A influência não se resume apenas na sonoridade, embora ela tenha se tornado uma das marcas registradas do "som Maxwell". Nas letras existe entrega, paixão e muitas vezes o homem assume uma atitude submissa em relação à mulher (dá para imaginar isso no ano em que o gangsta rap deu o tom?). Hoje em dia, praticamente todo trabalho que emula o soul tradicional traz em seu DNA algo de Urban Hang Suite - do romantismo de um Mayer Hawthorne à recente colaboração entre os cantores e produtores Bruno Mars e Anderson Paak, para ficarmos entre os mais populares.

Maxwell's Urban Hang Suite foi gestado durante dois anos até finalmente chegar às lojas no dia 02 de abril de 1996. A data é simbólica, marca o nascimento de Marvin Gaye, uma das lendas da música negra americana. O álbum também guarda semelhanças com duas obras-primas de Gaye, Let's Get it On, de 1973, e Here My Dear, de 1978. Nesses trabalhos, o astro da gravadora Motown vai do desespero para consumar uma nova paixão ao relato do final de um casamento, com toda lavação de roupa suja a qual tinha direito - que no final rendeu um processo por invasão de intimidade da ex-mulher, trocada pela musa inspiradora de Let's Get it On. Basicamente, o personagem principal (o próprio Maxwell, visto que ele confessou ter passado muitas de suas experiências pessoais para as letras do álbum) sai para a balada, encontra a mulher de seus sonhos, faz amor com ela a noite inteira, eles se separam, o rapaz não consegue viver sem ela, os dois se reencontram e ele a pede em casamento. Lido assim, pode soar tão banal quanto as letras de um pagode romântico dos anos 90. Mas vamos imaginar que os temas tenham recebido o auxílio de Stuart Matthewman (guitarra, saxofone e diretor musical da banda da cantora nigeriana Sade), as letras de Leon Ware (parceiro de Marvin Gaye no disco I Want You, de 1976, e que colaborou com os brasileiros Marcos Valle e Lucas Arruda) e a guitarra de Melvin Wah Wah Watson, guitarrista dos estúdios da Motown. E que canções como Sumthin' Sumthin' e Ascension (Don't Ever Wonder) tenham sido produzidas com uma linha de baixo irresistível e que 'Til the Cops Come Knockin' traga um dos trabalhos mais sensacionais de Watson? Maxwell também é um talento à parte: voz em falsete, deliciosamente contido e sensual num período em que os gritos e os melismas estavam em alta no moderno R&B dos Estados Unidos. Se eu não cheguei a berrar por Maxwell, me permiti fazer uma pequena loucura para assisti-lo ao vivo. Viajei por horas de trem e ônibus até Albany, conferi a apresentação e peguei o último ônibus de volta para Nova York. Por que? Definitivamente, por causa de Urban's Hang Suite.







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