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  • Sérgio Martins

A melhor banda de hard rock que você nunca escutou


Sempre achei Eddie Trunk, radialista e apresentador do (hoje extinto) That Metal Show um tanto truqueiro. Tem a péssima mania de falar mais do que seus entrevistados e suas análises, pelo menos para mim, não fazem tanta diferença. Quer dizer, quase. Durante uma entrevista que fiz com ele uns oito, nove anos atrás, Trunk me falou que existem dois tipos de conhecedores de hard rock/heavy metal: aqueles que nunca vão além do óbvio e sempre citam Iron Maiden, Metallica, Judas Priest e Motorhead como suas bandas preferidas e o os que realmente estudam o gênero. Este vai falar de grupos longe do radar comum, como UFO (que teve uma popularidade monstruosa na década de 70, porém hoje se tornou uma espécie de culto) e o Riot. Nunca escutou? Não se preocupe, você não é o único. Em mais de quatro décadas de vibrante - porém desastrado - tempo de estrada, o grupo americano viu todas suas chances de fazer sucesso irem por terra, seja por falta de empenho de sua gravadora, pelo postura errática de seus integrantes, pelo fato do mascote que estampava a capa de seus discos ser horrível ou simplesmente porque a fortuna não sorriu para eles, ainda que tenham lançados discos irretocáveis.

O Riot surgiu em 1975 na cidade de Nova York, pelas mãos do talentoso guitarrista Mark Reale. Ele comandou o grupo com mão de ferro, inclusive despedindo integrantes que achasse que não se adequavam à postura da banda. A formação mais estável incluía, além de Reale, o também guitarrista Rick Ventura e o vocalista Guy Speranza. O trio e mais o baixista Jimmy Iommi e o baterista Peter Bitelli gravaram Narita (1979), um híbrido entre o hard rock e o heavy metal. A obra-prima do quinteto, contudo, é Fire Down Under, de 1982. Iommi e Bitelli deram lugar a Sandy Slavin e Kip Leming, respectivamente, e o quinteto passou a soar mais pesado, com riffs fortes de guitarra e uma seção rítmica dura na queda. É até hoje o disco de maior popularidade deles e o que traz as canções de maior apelo popular - Swords & Tequila, Outlaw, Altar of the King.... Tinha inúmeros atrativos para o sucesso imediato, visto que os Estados Unidos presenciavam a ascensão da new wave of british heavy metal: duas guitarras que se casavam perfeitamente, baterista e baixista pesados na medida e um vocalista que ia do registro suave à agressividade. As qualidades do Riot, contudo, selaram seu destino na sua gravadora, a EMI. Eles foram deixados de lado por serem "pesados" demais e mantidos sob contrato ainda que não fizessem parte dos planos da companhia. Speranza se converteu ao cristianismo e deixou o grupo. Scott Ian, guitarrista do Anthrax, conta que chegou a conversar com o vocalista para que ele assumisse o posto de frontman do iniciante conjunto de thrash metal. Speranza agradeceu o interesse, mas preferiu trabalhar em dedetização. Morreu em 2003, de câncer no pâncreas.




Rhett Forrester (no centro), de canto mais rasgado e agressivo, foi o substituto de Guy Speranza no Riot. O grupo então lançou Restless Breed (1983), puxado para o universo do heavy metal, embora trouxesse regravações de Eric Burdon & the Animals (When I Was Young), uma balada de cortar os pulsos (Showdown) e uma canção de apelo pop (Loved By You, que tinha um delicioso solo de gaita) que faziam um contraponto a faixas pesadas como Hard Lovin' Man, Loanshark (que ao vivo vinha acompanhada de um solo de bateria de Slavin) e CIA. Dessa vez, tiveram o azar do Quiet Riot - nomes beeem parecidos - estourar com Cum on Feel the Noise. O fraco Born in America, de 1983, encerrou essa fase.


Reale retomaria o Riot em 1988, dessa vez com flertes para o power metal. E assim levou a banda até sua morte, em 2012. Sofria da doença de Crohn, uma doença inflamatória intestinal. Reale foi internado e morreu poucos dias antes de uma apresentação do Riot no B.B. King Blues & Grill, em Nova York (eu cheguei a ir até a porta do lugar e desisti após saber que o guitarrista não iria tocar). Dezoito anos antes, Forrester tinha sido assassinado depois de uma tentativa frustrada de assalto.

O Riot ainda é desconhecido no país, embora tenha havido um bom esforço para a divulgação do grupo. A Hellion Records lançou uma versão remasterizada de Fire Down Under, com faixas adicionais e uma mixagem que havia sido aprovada pelo grupo. Neste mês devem chegar, também pela Hellion, quatro álbuns de sua encarnação power metal: Sons of Society, Through the Storm, Army of Time, Inishmore. A companhia brasileira também irá colocar no mercado Rock the World, uma compilação de raridades. Se eu fosse você, começaria por Fire Down Under e depois passaria pela fase pesada. Mas colocaria Riot para sempre entre os meus favoritos.




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