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  • Sérgio Martins

A New Wave of British Heavy Metal em doze passos

Nem só de punk rock viveu a Inglaterra, na virada dos anos 70 para os 80. O alto índice de desemprego, somado ao clima de instabilidade política - Margareth Tatcher, a "dama de ferro", tinha recém assumido ao cargo de Primeiro Ministro do país - gerou uma outra leva de jovens que usaram a música para refletir suas frustrações. A New Wave of British Heavy Metal, termo criado pelo jornalista Geoff Barton, não tinha as pretensões artísticas do punk rock, muito menos sua conotação política/anarquista. Trazia, contudo, o mesmo estilo rápido e agressivo que caracterizou bandas como The Clash, Damned e Sex Pistols.

O movimento completou quatro décadas de existência na semana passada e me motivei a fazer uma lista pessoal de doze álbuns que o definiram. Muitos deles - Iron Maiden, Tygers of Pan Tang, Witchfinder General etc - estavam entre os meus prediletos daquele período, outros surgiram de conversas com meu amigo Ricardo Batalha, articulista da Roadie Crew. Fãs de heavy metal sentirão falta de um ou outro disco simbólico, mas... é uma lista pessoal. Sugestões serão muito bem aceitas. Para completar, vale a pena ler este artigo do Independent sobre a new wave of british heavy metal e se deliciar com essa playlist organizada pelo Batalha.

https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/music/features/new-wave-of-british-heavy-metal-album-anniversary-rock-n-roll-a9455821.html


https://open.spotify.com/playlist/40gfKnmWJ4cRnccVU2xJI7?si=wwLU4HC-R7-qAsgkyEkQxQ

SAXON - WHEELS OF STEEL (1980) O grupo surgido em Barnsley tem entre seus trunfos a voz aguda e rascante de Biff Byford, o baixo bem marcado de Steve Dawnson e o casamento das guitarras de Paul Quinn e Graham Oliver. Wheels of Steel é o segundo álbum do quinteto e ajudou a desenhar a sonoridade da new wave of british heavy metal. Motorcycle Man (até hoje um dos pontos altos dos shows do grupo, ao lado da canção título desse álbum), Stand Up Be Counted e 747 (Strangers in the Night) marcam um período de grande criatividade: nos três anos seguintes, o Saxon lançaria um ótimo disco ao vivo, The Eagle Has Landed, e os belíssimos álbuns de estúdio Denim and Leather, Strong Arm of the Law e The Power and the Glory.




DEF LEPPARD - ON THROUGH THE NIGHT (1980)

Cinco moleques de Sheffield com influências que vão de Judas Priest e UFO ao glam rock de Mott the Hoople e T. Rex. O Def Leppard se destacou entre seus pares por unir o peso do hard rock ao pop. Em On Through the Night, eles ainda estão tentando encontrar uma sonoridade própria, mas é uma audição saborosa. Wasted tem um belo riff de guitarra, o solo de Sorrow is a Woman é um primor e Rock Brigade ajudou a batizar uma das principais revistas brasileiras dedicadas ao heavy metal. O Def Leppard refinaria seu estilo nos discos posteriores e o cantor Joe Elliott passaria a cantar num tom mais agudo, mudanças que proporcionaram a entrada do grupo no competitivo mercado americano.





SAMSON - HEAD ON (1980)


Paul Samson era um guitarrista muito mais ligado ao blues rock quando foi impactado pela cena da new wave of british heavy metal. Sua banda homônima tem como destaque o fato de ser o primeiro grupo de destaque do cantor Bruce Dickinson (então Bruce Bruce) e fazer um respeitável hard/heavy. Head On é o melhor disco do grupo, ainda que eu também ame Before the Storm, de 1982. O vocal de Dickinson nitidamente inspirado em Ian Gillan, e canções como Hard Times e Thundersburst – que Steve Harris, do Iron Maiden, rebatizaria como The Ides of March e colocaria em Killers – são alguns dos destaques do álbum.



GIRLSCHOOL - DEMOLITION (1980)

O quarteto ajudou a abrir caminho para a presença feminina no cenário hard rock/heeavy metal. Sim, bem mais do que as Runaways, que eram ótimas mas nunca foram levadas a sério por causa da postura sensualizada. Girlschool tinha mais peso e atitude, qualidades que as levaram para abrir shows da turnê do Motorhead e juntos gravarem o EP St. Valentine’s Massacre. Posteriormente assinaram com a Bronze, gravadora do trio. Demolition é o trabalho de estreia das meninas e onde as guitarristas Kelly Johnson e Kim McAuliffe estão na sua melhor forma. Canções como a faixa-título e a cover de Race With the Devil, de The Gun, grupo que tinha entre seus integrantes Paul e Adrian Gurvitz (este último se tornaria um compositor pop de sucesso) são uma ótima introdução ao grupo.




ANGEL WITCH - ANGEL WITCH (1980)

Certas bandas nasceram para lançar apenas um único disco, deixar sua marca e desaparecer. É o caso desse trio londrino, surgido em 1976 com o nome de Lucifer e liderado pelo guitarrista e vocalista Kevin Heybourne. Angel Witch, de 1980, é um tributo a mestres como Black Sabbath, principalmente no que se refere aos temas macabros e ao clima gótico. Tem, no entanto, a velocidade e a agressividade que os novos tempos exigiam – vide canções como Sorcerers e Angel of Death. O trio afundou por conta da constante troca de integrantes e péssima administração, mas conquistou fãs fieis como Lars Ulrich, baterista do Metallica. A pintura da capa é atribuída ao romântico John Martin (1759-1854) e tem o sugestivo título de The Falling Angels Entering Pandemonium.





DIAMOND HEAD - LIGHTNING TO THE NATIONS (1980) Os riffs das canções desse grupo surgido em Stourbridge certamente foram servidos nas refeições dos guitarristas de Metallica e Megadeth. É, contudo, outro caso de artista que não alçou o patamar merecido por causa de péssimo empresariamento, que recusaram propostas de gravadoras interessadas em seu hard rock/metal rápido e agressivo. Numa outra mostra de falta de tato, Lightning to the Nations foi lançado sem ilustração alguma, sem nome das músicas, apenas com uma capa branca assinada pelos integrantes do Diamond Head. Sucking My Love soa como se Robert Plant cantasse numa banda inspirada pelo Black Sabbath. O Metallica gravou cinco canções do Diamond Head em seu Garage Days, o que fez com que os ingleses tivessem um merecido reconhecimento.




IRON MAIDEN - KILLERS (1981)

Historicamente, o álbum que deveria figurar nessa lista é o disco de estreia do quinteto, lançado em 1980. Mas, para mim, Killers é o disco que cristalizou a sonoridade do Iron Maiden: eles encontram em Adrian Smith o parceiro ideal para a guitarra de Dave Murray, o baixo galopante de Steve Harris ganha velocidade e casa melhor com a bateria treme-terra de Clive Burr e Paul Di’Anno dá seus melhores gritos. The Ides of March, Wrathchild, Innocent Exile, Another Life... uma paulada atrás da outra. Posteriormente o Iron Maiden, cansado do comportamento errático de Di’Anno e de olho no mercado americano, foi atrás de Bruce Dickinson e o resto é história. Outra curiosidade: as edições brasileiras de Killers omitiram a faixa Twilight Zone.




TYGERS OF PAN TANG - SPELLBOUND (1981)

Estes roqueiros do norte da Inglaterra sempre foram o grupo certo com o vocalista errado. Uma das poucas vezes em que acertaram nesse quesito foi com este álbum, que marcou a entrada de Jon Deverill (ex-Persian Risk, cujo guitarrista era Phil Campbell, do Motorhead) e a guitarra virtuosística de John Sykes, que tempos depois brilharia no Thin Lizzy e no Whitesnake. É ele quem brilha no duelo com Robb Weir, “dono” da banda em Take It, e faz um solo inspirado na balada Mirror. Spellbound surgiu seis meses depois de Wild Cat, estreia do Tygers, e traz um som mais amadurecido e agressivo, como se pode notar em Gangland e Silver and Gold. Sykes gravaria mais um álbum com o grupo, Crazy Nights (1981), mas sem repetir o brilho de Spellbound.




VENOM - WELCOME TO HELL (1981)

O trio formado por Cronos (baixo, vocais), Mantas (guitarra) e Abaddon (bateria) não apenas gravou um dos álbuns essenciais da new wave of british heavy metal, como ajudou a criar outro estilo musical – o black metal ou metal extremo. Tudo por causa dos temas macabros de Black Sabbath levados ao pico do terror, juntamente com a agressividade musical do Motorhead. Surgido em Newcastle upon Tyne, o grupo é famoso pelo seu som agressivo e sem polimento, e com os vocais guturais de Cronos disparando contos sobre bruxaria e maldição. Welcome to Hell foi assimilado por roqueiros dos Estados Unidos (Slayer) e Suíça (Celtic Frost) por conta de pauladas como a faixa-título e Witching Hour.




RAVEN - ROCK TILL YOU DROP (1981)

Os irmãos Mark (guitarra, vocais) e John (baixo, vocais) são Gallagher e também são naturais do norte da Inglaterra – no caso, Newcastle. Mas ao contrário de Noel e Liam, do Oasis, arautos do britpop, estes aqui são adeptos de um rock rápido e aeróbico. Mark e John definiram seu estilo como “athletic rock” por causa do alto teor de adrenalina e corre-corre durante as apresentações. Os Gallagher, e mais o baterista Rob “Wacko” Hunter foram uma das grandes promessas do movimento por causa de Rock Til You Drop e Wiped Out (um dos prediletos da minha adolescência). É um rock’n’roll com anfetamina, como mostram canções como Don’t Need You Money e Lambs to the Slaughter. Tempos depois, o Raven tentaria entrar para o glam metal, num dos maiores erros de sua carreira. Mark e John, contudo, se redimiram e continuam na ativa, como mostra essa foto linda e atual de Ricardo Ferreira.



WITCHFINDER GENERAL - DEATH PENALTY (1982)

Quando escutei esse disco, nos idos de 1982, poderia jurar que o Black Sabbath tinha voltado às boas com Ozzy Osbourne, de tanto que o vocalista Zeeb Parkes se inspirou no vocal anasalado que escutamos em discos como Paranoid e Sabotage. O Witchfinder General, que tirou seu nome de um filme de terror de 1968 estrelado por Vincent Price, trazia uma nítida influência dos pais do heavy metal, contudo seu andamento era mais vagaroso. Por isso, alguns críticos o vêem como um precursor do doom metal. Death Penalty, sua estreia em disco, causou desconforto por causa da foto da capa, tirada sem permissão num cemitério inglês, na qual a modelo Joanne Latham aparecia de topless. Esqueça as controvérsias e mergulhe no som do grupo, uma beleza de peso e terror. R.I.P. e Burning a Sinner estão entre as minhas prediletas do metal de todos os tempos.






SATAN - COURT IN THE ACT (1983)

Existe algo de muito maligno em Newcastle upon Tyne, cidade localizada no norte da Inglaterra, quase na fronteira com a Escócia. O quinteto Satan é natural daquela cidade, assim como o Venom. E a exemplo do Venom, embora tenha aparecido em meio à new wave of british heavy metal, o grupo formado em 1979 também deu origem a outro subgênero do rock pesado – o thrash/speed metal, visto a velocidade com a qual executavam suas canções. O grupo foi prejudicado pelas diversas mudanças de formação e até de nome: foi posteriormente batizado como Blind Fury e Pariah. Court in the Act, contudo, é seu melhor testamento musical, em especial por causa das rápidas Trial By Fire e Break Free. Em sua resenha no All Music Guide, o jornalista Eduardo Rivadavia ressalta ainda o trabalho dos guitarristas Steve Ramsey e Russ Tippins, comparando-os às guitarras gêmeas de K.K. Downing e Glenn Tipton, do Judas Priest. Hail Satan!




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