Buscar
  • Sérgio Martins

"A versão de Liberace do inferno"


A crítica odiou O Fantasma da Ópera quando o musical debutou nos palcos do West End e da Broadway, na segunda metade dos anos 80. O título acima, aliás, foi tirado da análise de um jornalista do jornal The New York Times, enfastiado de tanto assistir palcos que se transformam em rios subterrâneos, lustres assassinos e bailes de fantasias que parecem ter sido organizados por Clóvis Bornay e Evandro Castro Lima. O público, porém, nem deu bola: O Fantasma, que será exibido gratuitamente no YouTube a partir das 15h dessa terça, está ate hoje em cartaz nessas duas cidades e fez duas temporadas bem-sucedidas nos palcos brasileiros: em 2005, com Saulo Vasconcelos no papel título, e em 2018, com o tenor de ópera Thiago Arancam vestindo a capa e a máscara do gênio deformado (e o barítono Leonardo Neiva como seu alternante).




Composto por Andrew Lloyd Webber e com letras de Charles Hart e Richard Stillgoe (que também assina o libreto ao lado de Webber), o musical é baseado na história homônima do francês Gaston Leroux, que gerou diversos filmes de terror. Ele tem todos os elementos de uma trama de sucesso: a paixão de um gênio deformado e torturado por uma corista de ópera, seus esforços para que ela se torne uma cantora de sucesso, e sua vingança por ter sido abandonado por um galã. Webber criou como um veículo de divulgação para sua ex-mulher, a cantora Sarah Brightman, que até então tinha tentado uma carreira como rainha da disco music. Sarah acabou por se tornar não apenas o molde de todas as Christine (e ela me confessou que sempre que pode revê o musical para ver se estão interpretando a sua criação decentemente) como inspirou uma série de vocalistas do chamado metal melódico.


A música está entre as melhores criações de Lloyd Webber, embora ele tenha cometido algumas impropriações indébitas. A mais famosa é a canção-tema, surrupiada de Echoes, clássico do Pink Floyd. Quando entrevistei Roger Waters, ex-baixista do grupo e um dos autores da canção, eu comentei sobre essa semelhança. A resposta veio cuspida entre os dentes. "Eu o processei e ele alegou que tinha se inspirado numa obra erudita. Sei lá o que fez na Justiça que deram ganho de causa para ele e sou proibido de falar do assunto". Existe até um vídeo na internet que apresenta os temas roubados por Webber. O Fantasma, parceria do compositor com o produtor Cameron McKintosh, inaugurou também uma nova era do gênero: a dos musicais espetáculo, nos quais os efeitos muitas vezes contam mais do que a trama e a canção exibida. Embora tenha criado um "monstro", O Fantasma da Ópera é uma diversão imperdível. Diverte, emociona e tem alguns dos maiores standards dos musicais da segunda metade do século XX.




62 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

É a maior