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  • Sérgio Martins

Arthur Nogueira: "O termo patriotismo me causa desconforto"


Toda vez que me falam de um novo talento, eu costumo marcar um café para conferir se o artista é realmente de verdade. O "olho no olho", as ideias sobre música e referências são mais importantes que que qualquer recomendação. Arthur Nogueira foi assim. Não foi um café, mas sim uma pizza ao lado de Patrícia Casé e Zé Pedro. Ali, entre garfadas e risadas, ele comprovou todo o talento que eu tinha percebido em Sem Medo, Nem Esperança, canção de sua lavra que abre Estratosférica, de Gal Costa, bem como todas as coisas boas que Zé, a Véia, tinha me falado sobre ele. Conversamos sobre Rei Ninguém, o disco que ele tinha lançado há pouco e me lembro de termos discordados da pecha de "álbum triste", que as pessoas tinham falado. Falamos sobre Belém, poesia e música, muita música. No início deste ano, Nogueira lançou Salvador, um single de rara beleza, que foi a minha trilha sonora por muito tempo (por razões pessoais, tenho amado muito Salvador). Recentemente, ele abriu o projeto A Sala é Sua, que tem curadoria de Zé Pedro e traz na produção meus lindos amigos Rui Mendes e Richard Kovacs, e está compondo freneticamente. Com vocês, Arthur Nogueira.



O que você anda escutando nesse período tão estranho para todos nós? Dos lançamentos, tenho curtido o novo da Fiona Apple (Fetch The Bolt Cutters) e o álbum de estreia de um duo de música eletrônica de Belém, chamado Slowaves. Queria muito ler Elis e Eu, o livro do João Marcello Bôscoli, e consegui fazê-lo há pouco tempo. Como fiquei emocionado com a leitura, voltei aos discos da Elis. Tenho familiaridade com a discografia dela, porque ouvi muito durante a adolescência, com meu pai, mas foi inspirador revisitá-la nesse momento, com ouvidos mais maduros. O álbum de 1973 e o Elis & Tom sempre me impressionam. Aliás, falando em Elis, foi dolorosa e simbólica, em um contexto tão opressor, a notícia da morte de Aldir Blanc. Assim que soube, ouvi Querelas do Brasil bem alto. É desolador, mas é a verdade: "o Brazil tá matando o Brasil." ". Reconheço isso ao mesmo tempo em que o termo "patriotismo" me causa imenso desconforto. No geral, os que mais o utilizam hoje não se chocam, por exemplo, com a vassalagem aos norte-americanos praticada pelo governo brasileiro, que nos custa um preço tão alto. Não me considero um patriota. Celebro a originalidade e a riqueza cultural do Brasil ao mesmo tempo em que reconheço que os Direitos Humanos estão acima de toda soberania nacional interna.




Você ainda encontra inspiração para produzir ou se dedica a outras atividades? No começo do confinamento, tive a ilusão de que poderia me retirar, desacelerar mesmo. Infelizmente, no Brasil, poucas pessoas têm esse privilégio, mas eu tinha àquela altura. Nos primeiros dias, resolvi questões de trabalho pendentes e me dediquei, basicamente, a ler e assistir a muitos filmes. No entanto, não demorou para as boas e más notícias chegarem. A rotina complicou, mas, no geral, a boa nova é que a música, antes do esperado, mandou me chamar outra vez: fiz uma letra para uma melodia da Luiza Brina, cantora e compositora de Minas Gerais, e estou agora escrevendo para uma nova melodia do Zé Manoel, meu parceiro em Moonlight, do álbum Rei Ninguém. Pretendo lançar também, nos próximos meses, dois singles produzidos antes da pandemia. São canções da mesma safra de Salvador, Pontal, parceria com Fernanda Takai, e Dessas Manhãs sem Amor, parceria com Zélia Duncan, já disponíveis nas plataformas digitais.





O período pelo qual estamos passando irá afetar a tua maneira de compor? Com relação aos temas, já aconteceu. As letras que escrevi para Luiza e Zé são metalinguísticas: feitas em confinamento, são canções sobre a experiência de fazer canções em confinamento. Quanto à maneira de compor, imagino que não, porque a composição para mim, mesmo em parceria, é sempre uma atividade solitária. Tenho dificuldade para sentar com alguém, tête-à-tête, e compor. Uma vez, a Ana Carolina me convidou para ir até a casa dela fazer música. Foi um encontro delicioso, conversamos, rimos, fizemos muitos drinks, mas pouco fizemos música. Sou tímido e meu processo criativo é lento. Com meus parceiros, geralmente funciona assim: ou recebo uma melodia ou uma letra e trabalho sozinho; ou envio uma melodia ou letra para o parceiro trabalhar sozinho. A partir da primeira versão da música ou da letra, ou pelo menos de um esboço, é mais confortável prosseguir juntos. O silêncio e a página em branco são prazeres solitários. Diante de alguém, intimidam.

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