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  • Sérgio Martins

Beastie Boys, um trio obcecado pelo conhecimento


Em 1995, enquanto estavam em turnê pelo Brasil, os Beastie Boys fizeram um inusitado pedido a Jan Fjeld, assessor da Virgin, gravadora que os representava por aqui: eles gostariam de conhecer o Masp. No dia seguinte à sua apresentação no Olympia (São Paulo), lá estavam Adam Yauch, Mike Diamond e Adam Horowitz, todos garbosos e pimpões na recepção do hotel, para se deliciar com o acervo da instituição. Eu nunca soube se as exigências do trio se estenderam a outros prazeres da vida e tampouco quis saber, mas o episódio aumentou a minha admiração pelo grupo, cujo documentário Beastie Boys Story está em cartaz na AppleTV: mais do que qualquer outro conjunto de sua geração, Adam Yauch, Mike Diamond e Adam Horowitz eram seres obcecados por conhecimento. E foi graças a isso que eles passaram de um grupo de moleques sebosos para os artistas primorosos e influentes que são hoje.



Gravado no Kings Theatre, no Brooklyn, o filme é uma versão stand up de Beastie Boys Book, biografia do grupo, lançada em 2018 e que se tornou um best seller. Diamond e Horowitz (Yauch morreu em 2012, de câncer) se unem ao cineasta Spike Jonze, parceiro de alguns dos principais vídeos do trio, para contar sua trajetória, marcada por fortes laços de amizade. Diamond, Horowitz se uniram ao guitarrista John Berry e à baterista Kate Schellenback, todos estudantes do mesmo colégio, para criar uma banda de punk rock. Durante um show dos Bad Brains, eles conheceram Yauch que prontamente se uniu ao conjunto. O punk rock cedeu espaço para o hip hop e logo o quarteto - Berry não durou muito tempo - caiu nas graças do produtor Rick Rubin e do empresário Russell Simmons que os levaram para a gravadora Def Jam, principal instituição do universo do rap daqueles tempos. O Clube do Bolinha que se formou da união dos Beastie com Rubin dá origem a um dos primeiros mea culpas do documentário. Eles se arrependem de tirado Kate da banda, visto que ela destoava da imagem de garotos inconsequentes que haviam criado. E que rendeu muito sucesso: Licensed to Ill (1986), disco de estreia do trio, foi um dos álbuns de estreia mais vendidos da história do pop graças a sucessos como (You Gotta) Fight For Your Right (To Party), samples de bateria de Led Zeppelin adaptados à batida do hip hop e uma postura hedonista. Os Beastie Boys abriram para Madonna e Run-D.M.C. - vou me poupar dos causos contados dessas turnês, visto que são alguns dos mais engraçados do documentário - faziam apresentações cujo cenário trazia uma dançarina numa gaiola e um pênis gigante. Isso mesmo, garota engaiolada e um piu piu enorme.


A postura inconsequente dá espaço para alguns dos principais pedidos de desculpas da noite. Horowitz, visivelmente incomodado, recita a letra de Girls e confessa ter esnobado Kate quando a viu numa lanchonete. Quando o trio se cansou da postura de "o bêbado que você quer ver fora da festa", seus integrantes passaram meses sem se ver até assumirem uma postura séria em relação à música. Que resultou em discos como Paul's Boutique (1989), ao lado dos Dust Brothers, Check Your Head (1992) e Ill Communication (1994), com os quais mudaram a visão que a indústria tinha deles, que era de três moleques desagradáveis. Diamond e Horowitz mostram a preocupação em se aprimorarem como instrumentistas e a nova realidade que enfrentaram por conta dessa decisão, que foi trocar palcos como os do Madison Square Garden para clubes e boates. A criação de Sabotage é algum dos detalhes de produção dados pelo trio: uma linha de baixo criada por Yauch que foi preenchida por uma série de xingamentos de Horowitz ao amigo Mario C. (o brasileiro Mário Caldato, que depois trabalhou em discos de Planet Hemp e Chico Science & Nação Zumbi, além de Marisa Monte e Mallu Magalhães).



Beastie Boys Story é um documentário sob o ponto de vista do trio (embora Yauch não esteja mais presente, várias de suas citações são apresentadas ao longo de quase duas horas de conversa). Eles falam de como Rubin e Simmons teriam se apropriado até dos ganhos financeiros de Licensed to Ill, mas não voz à versão da dupla. Debocham de como os ingleses quiseram bani-los do país no final dos anos 90, mas preferem esquecer a polêmica criada no final da década seguinte, quando pediram para o grupo de música eletrônica Prodigy não incluísse a misógina Smack My Bitch Up no repertório de um festival de música no país. Mas são omissões que não tiram a força da narrativa, muito menos a emoção de assistir ao documentário. Ao final, Beastie Boys Story é um conto musical de três moleques de Nova York para quem um muito de conhecimento nunca foi o suficiente.


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