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  • Sérgio Martins

Betty Wright e a música que não sai da cabeça


"Nunca mais roubem a minha canção, nunca mais roubem a minha canção, nunca mais roubem a minha canção, nunca mais roubem a minha canção!" Estamos em 2016, no Festival de Jazz de Curaçao, mas até hoje Betty Wright não se recuperou da tunga que recebeu 25 anos atrás do grupo de R&B Colour Me Badd. Explicando melhor: em 1991, I Wanna Sex You Up, single do quarteto, disputou cabeça com cabeça o primeiro lugar da parada americana com More Than Words, balada do grupo de hard rock Extreme. O detalhe é que trata-se de um roubo descarado de Tonight's the Night, single que Betty lançou em 1974. E nem foi caso de sample: eles meteram a mão mesmo, visto que I Wanna Sex You Up aproveita toda a linha de baixo da canção composta por Betty e Willie Clarke.

Tonight's the Night tem duas passagens pela parada de sucessos americana. A primeira, de 1974, emplacou a 28a. colocação na categoria R&B. Quatro anos depois, devidamente remodelada, ela subiu algumas posições: foi para a 11a. colocação. É essa versão, presente no disco Live!, que se tornou obrigatória nas rádios e bailes de black music brasileiros. O segredo, além da linha de baixo e daquelas palmas que parecem saídas de discos de piada, está na conversa que Betty tem com a plateia, na qual explica como a canção surgiu. A letra foi baseada na primeira vez dela: era um poema, que o produtor de Betty viu e sugeriu que virasse uma balada. O momento mais engraçado, contudo, se dá quando ela mostra a música para a mãe. Betty era a caçula da família e dona Wright não gostou de que a filha expusesse os detalhes da perda da virgindade. E não tem nada mais delicioso que escutar o "you're not gonna sing that song!", disparado no meio da música.




A balada está entre os muitos feitos da cantora, nascida Bessie Regina Norris no dia 21 de dezembro de 1953, na cidade de Miami. Criada no meio gospel, ela se caracterizou pela voz extraordinária e talento precoce. Betty emplacou seu primeiro sucesso, Girls Can't Do What the Guys Do aos quinze anos. Convidada para participar do programa American Bandstand, do apresentador Dick Clark, foi obrigada a dizer não porque a escola onde estudava não a liberou. Três anos depois, foi novamente requisitada e dessa vez aceitou: cantou Clean Up Woman, de 1971, funk que trazia as primeiras características sonoras da disco music e que atingiu o sexto lugar na parada geral dos Estados Unidos. Mas não se limitou a ser uma intérprete: auxiliou na carreira de jovens artistas como George McRae (de Rock Your Baby) e Peter Brown (Dance With Me, na qual ela faz os backing vocals). No início dos anos 2000, foi mentora de uma menina inglesa chamada Joss Stone. The Soul Sessions (2003), que marcou a estreia de Joss na indústria fonográfica, tem muito de Betty Wright. Seja na escolha das canções e na escalação dos músicos - Questlove, baterista de The Roots, ao lado do tecladista Kenny Latimore, ícone do soul/funk dos anos 70.







Nos anos 80 Betty Wright lançaria seu próprio selo, o B. Records, onde emplacaria outro sucesso: No Pain, No Gain, que aqui no Brasil entrou na trilha da novela Bebê a Bordo, lhe rendeu o privilégio de ser a primeira dona de gravadora a ganhar um disco de ouro. Seu painel de colaborações vai de Stevie Wonder a Alice Cooper, de Stephen Stills a Foreigner, de Humble Pie a Inner Circle e vários rebentos da família Marley. Os rappers e a nova geração da música negra, então a adoravam: há ecos de Betty Wright em discos de P. Diddy, Snoop Dogg, Lil Wayne e Mary J. Blige. Betty Wright morreu no último domingo, dia 10 de maio, em sua cidade natal, vitimada por um câncer. Tudo o que eu queria agora era escutar aquela série de resmungos (e uma aula de soul da melhor qualidade) como escutei naquela noite em Curaçao. Se não me engano, ela mandou outros tantos "nunca mais roubem a minha canção" até em ritmo de rap. Mulher versátil, essa Betty Wright.





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