Buscar
  • Sérgio Martins

Canções de alma argentina


No diminuto palco de uma instituição cultural localizada no centro de São Paulo, ela avista a filha, Bahía, sentada no colo do pai logo na primeira fila. Sorri para a menina, acena, manda beijos. A doçura, contudo, é passageira. Poucos minutos depois, Elena Roger encarnaria os personagens das canções de Astor Piazzolla, tema de 3001, álbum gravado em parceria com o espetacular grupo de jazz argentino Escalandrum (e cujo líder, Daniel Pipi Piazzolla, é neto do grande modernizador do tango): boêmios, marginais, amantes destinados à tragédia, bêbados e loucos. E Elena foi todos e todas naquela noite: a cada música, um tipo diferente de interpretação, um tipo diferente de dor. Me lembro de, ao final do concerto, me virar para uma amiga que me acompanhava e dizer: "Isso sim é uma grande cantora".

Há tempos que essa entrega, essa força, faz parte da rotina dessa cantora argentina, nascida há 45 anos em Buenos Aires. Elena, que também é atriz, atuou em montagens locais de espetáculos como A Bela e a Fera, Les Miseràbles e Os Embalos de Sábado à Noite. O seu primeiro grande trunfo, contudo, foi viver Evita nos palcos do West End e da Broadway londrina. Um feito considerável para um papel que foi vivido pelas divas Elaine Page e Patti Lupone. "Fiz a minha Evita, enquanto todo mundo queria imitar Elaine ou Patti. Por isso que me escolheram" diz ela, na entrevista que pode ser assistida ao final dessa matéria. O personagem abriu portas para outros papeis de destaque, em montagens de Piaf - biografia romantizada da cantora francesa - e Passion, de Stephen Sondheim. Paralela à carreira dos musicais, Elena tem uma discografia respeitável como intérprete, onde vai de Gustavo Ceratti, lendário roqueiro argentino, a Rolling Stones e The Police.







Já o Escalandrum tirou seu nome da mistura de escalandrun, um tipo de tubarão que Daniel pescava ao lado do avô Astor com drum (bateria), instrumento pelo qual ele se encantou de tanto assistir às batucadas da torcida do River Plate. O grupo existe há mais de duas décadas com a missão de adaptar ritmos folclóricos de seu país para a linguagem do jazz - e aqui, além da bateria de Piazzolla e do excelente naipe de sopros, destacam-se os arranjos do pianista Nicolás Guerschberg, que vão do clássico à elegância de Tom Jobim. Em 2010 eles se debruçaram sobre a obra de Astor Piazzolla num concerto antológico no Bridgestone Festival, em São Paulo. Posteriormente, essa releitura apareceria no disco Piazzolla Plays Piazzolla, lançado no ano seguinte, que lhe garantiu o Gardel de Oro, uma das principais premiações musicais da Argentina. A obra autoral do septeto é igualmente respeitável: em 2018 lançaram um ótimo disco gravado no Abbey Road, em Londres.






Os caminhos de Escalandrum e Elena Roger se cruzaram inicialmente em 2012, no Birdland, clube de jazz de Nova York. A cantora, que estava em cartaz com Evita, se deparou com uma canja da alemã Ute Lemper, que interpretou uma canção de Piazzolla ao lado do grupo. "Odiei aquilo. Não por causa de Ute, mas sim porque era eu quem deveria estar naquele palco", confessa. Dois anos depois, ela e o grupo se encontraram num festival de jazz de Mar Del Plata. Foi o início de uma parceria, que culminou em 3001, projeto no qual eles se debruçaram sobre a obra cantada de Astor Piazzolla - e que rendeu uma visita ao Brasil, em 2017. 2020 foi a vez de um álbum duplo, dedicado à obra da compositora Maria Elena Walsh: um de canções infantis e outros de música adulta. Atente mais uma vez para os arranjos delicados de Guerschberg, a versatilidade de Elena e o instrumental delicado do Escalandrum. Melhor: paremos o texto por aqui para apreciar os vídeos dispostos ao longo dessa matéria.






26 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo