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  • Sérgio Martins

Duas estagiárias chamadas Ana e Vitória




"E vocês vão trabalhar em qual editoria?", pergunto eu para duas meninas que estavam postadas na minha frente. Não era a primeira vez que elas tinham tentado chamar a minha atenção. As moças e mais Raquel Carneiro, atual editora de Cultura de VEJA, já haviam me assediado minutos antes na saída do banheiro masculino. Respondi, de modo apressado, que não queria falar com ninguém porque o Palmeiras tinha perdido o jogo realizado no dia anterior. Mais eis que elas se materializaram novamente na minha frente, acompanhadas por Raquel. Uma se chamava Ana, a outra se chamava Vitória e aparentemente vieram da região norte do país - falaram baixo demais para eu entender qualquer coisa. Depois da minha gafe, sou informado que eram na verdade uma dupla musical e pertenciam ao cast de Felipe Simas, o mesmo empresário do cantor Tiago Iorc. Vitória ainda encontra tempo para me presentear com o CD delas, com direito até a uma dedicatória fofa.

Em qualquer outra situação, uma gafe como essa seria imperdoável. Mas foi um bom aviso de que às vezes a gente tem de descer do pedestal. Para elas, virou uma anedota que sempre faz parte dos nossos encontros e o início de um relacionamento baseado no respeito e admiração mútuas. Um mês depois desse encontro atrapalhado, eu as levei para o VEJA Música, programa que comandei por doze anos na editora Abril. A boa audiência, aliada ao sucesso de canções como Trevo e Singular fizeram com que eu acompanhasse a trajetória delas com atenção redobrada. Quando achei que a hora delas tinha chegado, coloquei uma cópia do CD das meninas na mesa de Jerônimo Teixeira, então meu editor-executivo e disse: "Escuta no final de semana". Na segunda-feira, a matéria tinha sido aprovada. Um dos pontos altos da apuração se deu em São Caetano (São Paulo), às vésperas de um feriado prolongado, quando elas lotaram o teatro local e tocaram para uma multidão que cantou tudo do início ao fim e confirmou que se tornariam um fenômeno.

Anavitória são apontadas como as principais representantes do que se chama hoje de "pop fofo" ou "folk pop". Sem dúvida, suas canções doces e o belo casamento das vozes das meninas são o ponto de partida para um exército de duplas de casais, trios de irmãos e cantores adolescentes que tentam seguir os passos das meninas e consequentemente o esgotamento do gênero. Elas e Simas perceberam essa movimentação e passam por uma ligeira mudança de estilo. O Tempo é Agora, seu segundo álbum, lançado em 2018, traz uma produção menos franciscana - contou com Moog Canazio, engenheiro e produtor que trabalhou com todo mundo que importa. O maior avanço, contudo, está nas letras de Ana Caetano. Se o primeiro disco trazia composições com uma visão idealizada do amor e da vida a dois, os escritos de O Tempo é Agora mostram uma convivência em tempo real, onde o relacionamento muitas vezes é testado (vide Ai, Amor, primeiro single do álbum). O processo de composição de Ana, uma criadora que ganhou elogios rasgados do hitmaker Guilherme Arantes, sempre me fascinou. Quando fiz o piloto de um programa de entrevistas, três anos atrás, a dupla foi a primeira convidada. Inédito até agora, ele foi apresentado ao lado da jornalista Mariana Yamamoto e rendeu uma das tardes mais divertidas da minha vida profissional. E a amizade com as meninas continua: no kit de lançamento de O Tempo é Agora, havia um bilhete onde elas escreveram "de suas estagiárias preferidas". Pensando bem, são mesmo.

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