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  • Sérgio Martins

E tudo o que eles queriam era imitar o Duran Duran...


A cena é fofa demais e certamente já foi compartilhada por alguns de seus amigos: Curt Smith, baixista e vocalista do Tears for Fears (a outra é o guitarrista e vocalista Roland Orzabal) interpreta Mad World ao lado da filha, Diva. A versão acústica pode até causar estranheza àqueles que conhecem a original, de 1983, que trazia teclado e bateria eletrônicos, mas soa exatamente da maneira que Orzabal a concebeu, no início dos anos 80. O guitarrista queria então criar uma canção pegajosa, no estilo de Girls on Film, do Duran Duran. Fez bem mais que isso: concebeu um pequeno tratado sobre depressão e ansiedade, que volta e meia é usado como temas de personagens perturbados ou cenas em que tudo parece sair do controle - como no filme Donnie Darko ou no seriado C.S.I.


Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, Orzabal confessa que tinha dúvidas se Mad Wold realmente faria sucesso na versão acústica e na sua voz. A solução foi chamar o tecladista Ian Stanley. O músico, que depois se tornou integrante da banda de apoio da dupla, veio ao encontro das ambições musicais de Orzabal e Smith. Os dois amigos tinham um grupo de pop e ska, decidiram mudar de rumo depois de se encantarem com o pop eletrônico de Gary Numan. Smith, também no Guardian, lembra que outras referências importantes eram os discos Remain in Light, dos Talking Heads, Scary Monsters, de David Bowwie, e o terceiro álbum solo de Peter Gabriel. Orzabal também tinha dúvidas se a canção funcionaria na sua voz - o que fez Curt Smith assumir sua interpretação.





Mad World continuou sua trajetória errante mesmo depois de ter sido gravada em The Hurting (1983), disco de estreia dos Tears for Fears. Um dos prováveis motivos é sua letra, fruto de experiências dolorosas de Orzabal e Smith. O baixista se recorda que houve uma identificação mútua entre eles porque tiveram infâncias problemáticas - Orzabal ainda passou por um período de depressão. Já o guitarrista conta que a letra é um relato da confusão que se instala na cabeça de um jovem durante a passagem da infância para a adolescência. "É aquele período em que os hormônios ficam malucos e você está a um passo de desistir de tudo", relembra. Mad World faz ainda referências à teoria do grito primal, método criado pelo psiquiatra Arthur Janov, que defendia a tese de que o ser humano tinha de expulsar aos gritos e urros as dores sentidas no parto e na infância. John Lennon, adepto de primeira hora dos mandamentos de Janov, o fez exemplarmente em Mother. Orzabal preferiu uma referência literária. Os versos "os sonhos em que morro são os melhores que eu tive" são de uma ideia do psiquiatra na qual dizia que pesadelos são bons porque aliviam a tensão.


Orzabal e Smith pensaram em Mad World como lado B de um single. Foi a gravadora da dupla que apostou na força da canção e a lançou como terceiro compacto de The Hurting. Deu certo: ela atingiu o terceiro lugar na parada inglesa e trigésimo na americana (o sucesso nos Estados Unidos só viria com o álbum seguinte, Songs from the Big Chair, de 1985). Duas décadas depois, a regravação de Michael Andrews e Gary Jules foi o single de maior sucesso do natal inglês de 2001. Mad World se tornou uma espécie de standard pop, tendo sido cantada até por Adam Lambert, hoje vocalista do Queen, numa das temporadas de American Idol. No mesmo Guardian, Roland Orzabal agradeceu o seu período de depressão, fundamental para a criação de Mad World. Hoje, a canção faz um caminho inverso: o doce momento de intimidade de Smith e Diva são um alívio para a depressão causada pelos tempos de quarentena.





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