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  • Sérgio Martins

Eu concordo com o ministro da Defesa. Só que não...


No dia 30 de março, o general Walter Braga Souza Netto, atual ministro da Defesa do governo de Jair Bolsonaro, conclamou os cidadãos brasileiros para comemorar o dia 31 de março. Segundo o oficial, o golpe militar que encarcerou e matou milhares de cidadãos deve ser entendido " partir do contexto da época". Bem, tendo a concordar com o general, mas não pelos motivos que ele enumera em um longo e equivocado comunicado à nação. A única celebração possível de 31 de março é o lançamento de América do Sol, terceiro e último capítulo (que eles chamam de "ato") da trilogia de OxeAxeExu, do combo BaianaSystem. E se ainda há pessoas que gostam de saudar a morte e a tortura, Roberto Barreto (guitarra), Russo Passapusso (vocais), Seko Bass (baixo, ora bolas!) e Felipe Cartaxo (programação visual e ideias) defendem a resistência e a resiliência, armados do que há de melhor nas diversas vertentes da música negra e latina: o reggae, os tambores afro-baianos, a música africana e a guajira, entre outros estilos musicais, em álbuns forjados pelo quarteto e pelo produtor Daniel Ganjaman.




A viagem musical do BaianaSystem teve início no dia 12 de fevereiro com o lançamento de Navio Pirata. O primeiro ponto de partida é a Tanzânia, país africano de influência árabe. Mais precisamente, Dar es Salam, principal cidade daquela nação, e nascedouro da singeli music, estilo de andamento acelerado (varia entre 180 e 300pbm; para se ter uma ideia, o funk carioca fica entre 150 a 170 bpm) e que lembra muito a agitação dos trios elétricos do carnaval baiano. A singeli se faz presente em Nauliza, com participação do rapper tanzanês Makaveli, e coroa um álbum que tem a participação de artistas como o rapper BNegão e a cantora Céu, samples de rezas e de sucessos do carnaval baiano e gêneros conhecidos do trio como o dub e a jungle music - versão mais crua e jamaicana do polido drum'n'bass. Recital Instrumental, segundo ato do trio baiano, chegou às plataformas de streaming no dia 05 de março, tem somente duas canções inteiramente instrumentais - Barbatana e Rádio África - e as três restantes apoiadas letras que se assemelham a mantras de protesto, com toda a alquimia sonora do trio. É bonito perceber a influência da timbalada em Tubarão, faixa de abertura do álbum, e a voz da soprano lírica Liz Reis em Guerra Batalha, cujo clipe pode ser conferido acima.

América do Sol, o "contragolpe" do BaianaSystem, está disponível desde o dia em que a chamada "redentora" se instalou no país cinquenta e sete anos atrás. Musicalmente, existe um cruzamento saudável entre a música de sabor afro-baiano e caribenho do trio com as composições de matriz latina. Caso de Corneteiro Luís, uma guajira, e a dobradinha Pachamama e Capucha, que trazem a participação da cantora chilena radicada em Belo Horizonte Claudia Manzo. O sabor do reggae se faz presente nos teclados de Dança de Airumã, que lembram o toque percussivo das teclas nas canções dos Wailers (antiga banda de Bob Marley), e Oxe, no qual o baixo de Seko Bass - músico de toque econômico, mas que preenche espaços como ninguém - e o repente de Bule Bule na já citada Oxe (que tem ainda a participação do rapper Rapadura) e Vixe... De volta, ao pronunciamento do ministro da Defesa... Sabem que ele tem razão? É preciso entender o contexto da situação. E em tempos marcados por pandemia, negacionismo, intolerância e saudação a ditadores, nada mais necessário que a música de um grupo de combate como o BaianaSystem.




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