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  • Sérgio Martins

Fica, vai ter Sondheim!


Não, não teve bolo. Muito menos comemorações suntuosas como a de dez anos atrás, quando os elencos de suas principais criações o homenagearam num concerto-tributo, realizado na Avery Fisher Hall (hoje David Geffen Hall), com o acompanhamento luxuoso da Filarmônica de Nova York. Aliás, a estreia na Broadway da nova montagem de Company, que completou 50 anos de existência em 2020, foi cancelada por causa dessa peste negra moderna chamada Covid 19. Mas não se pode dizer que as comemorações dos 90 anos de Stephen Sondheim, completados no dia 22 de março, tenham sido ignoradas. O maior nome da história dos musicais da segunda metade do século XX ganhou um tributo adequado aos novos tempos, sem perder a grandiosidade de sua obra. Stephen Sondheim: Take me to the World, disponível no YouTube, é um espetáculo de mais de duas horas de duração, no qual celebridades, cantores e compositores, na segurança do confinamento, falam da importância dele em suas trajetórias e interpretam suas canções favoritas.



É necessário, antes de tudo, contextualizar a importância de Stephen Sondheim no mundo dos musicais. Eu recomendaria - e muito - o texto de Claudio Botelho sobre esse gênio, publicado em O Estado de S. Paulo, e o de Ruy Castro em Tempestade de Ritmos, livro que compila alguns de seus melhores escritos sobre música. Vamos, portanto, tentar honrar esses dois mestres. Sondheim foi pupilo de Oscar Hammerstein II, letrista que revolucionou o conceito de musical com Show Boat, de 1927, onde o entretenimento puro e simples para dar origem a um show que falava de temas como preconceito racial. Hammerstein não apenas o acolheu como filho, mas foi o seu mentor e analisou suas primeiras obras. A porta de entrada de Sondheim no universo dos musicais se deu em 1957 com West Side Story, acompanhado pela música de Leonard Bernstein, a coreografia de Jerome Robbins e texto de Arthur Laurents. Embora tenha sido um marco na sua carreira, foi uma das suas experiências mais dolorosas, inclusive no ponto de vista financeiro: ele abriu mão de parte dos lucros da produção apenas pelo luxo de ter seu nome nos créditos.


Sondheim sofreu abusos psicológicos da mãe, que o culpava do fracasso de seu casamento. Certa feita, às vésperas de uma operação, enviou uma carta ao filho dizendo que o único arrependimento na vida foi ter dado luz a ele. Os personagens de suas obras refletem um pouco a perturbação do autor, juntamente com alguns dilemas da vida moderna. São pessoas com dificuldade de se ajustar, frustrados, obsessivos, assassinos. E mesmo quando trata de contos de fadas, como Into the Woods, existe uma subversão, um olhar mais cínico para o "...e foram felizes para sempre". Sondheim não escreve para o publico que vai ao teatro à espera de uma diversão leve, mas sim para aquele que após o espetáculo passa horas remoendo a trama, talvez até se identificando com os tipos ali retratados. Como é o caso da cinquentona Company, no qual Bobby, o personagem principal, que flana pelo cotidiano de seus amigos casados. Enquanto tentam arrumar uma companhia para ele, no fundo invejam a liberdade do amigo. Company foi montado no Brasil em 2001 pela dupla Charles Moeller e Claudio Botelho, que iniciou ali uma parceria de sucesso - com as bençãos do próprio Sondheim, que veio assistir à montagem. Dois anos atrás, o musical foi encenado no West End londrino, onde foi adaptado para os novos tempos. Bobby virou uma mulher, e Amy, a noiva indecisa, se transformou em Jamie, noivo gay de Paul. Em 2019, Company foi reencenada no Rio, com direção de João Fonseca.




As composições de Sondheim são belíssimas, embora raramente assobiáveis. O compositor tem apenas duas criações que podem ser consideradas, digamos, sucesso. Send in the Clowns, de A Little Night Music, virou um standard pop ao ser gravada pela cantora Judy Collins e hoje faz parte do repertório em qualquer tributo a musical se que se preze. Recentemente, ganhou as telas do cinema. É a canção que dispara o gatilho da loucura de Arthur Fleck, o personagem de Joaquin Phoenix em Coringa. Sooner or Later foi composta para o filme Dick Tracy, ganhou interpretação de Madonna (embora eu prefira Bernadette Peters) e rendeu o único Oscar de seu compositor.





Stephen Sondheim: Take me to the World encanta pelo clima caseiro e pelas interpretações, em sua maioria reverentes e apaixonadas. Neil Patrick Harris canta um dos temas de Into the Woods na frente dos filhos, que saúdam o compositor, Bernadette Peters interpreta No One is Alone quase às lágrimas. No campo da reverência, Raúl Sparza (que também foi um dos muitos Bobby da trama) ressalta que Sondheim até hoje se preocupa em escrever música e Steven Spielberg ressalta que os dois estão trabalhando juntos na filmagem de West Side Story, que deverá ficar para 2021. Entre os muitos pontos altos, Meryl Streep, Christine Baranski e Audra MacDonald se unem numa versão etílica de Ladies Who Lunch, e a diva Patti Lupone interpret Anyone Can Whistle. I'll drink to that, mr. Sondheim.





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