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  • Sérgio Martins

Filipe Catto: "Tenho respeito pelos trabalhadores da cultura"


Conheci Filipe Catto através de Tejo Damasceno, produtor talentoso e meu interlocutor de todas as vezes em que gravava o VEJA Música no estúdio da YB, na Vila Madalena, São Paulo. Me apaixonei de imediato pela voz e pela versatilidade que o fazia ir de uma canção densa de Elis Regina, gravada em estúdio, a Music, de Madonna, cantada numa festa de entre amigos. Posteriormente, essa paixão se tornaria um caso sólido: são lindas as nossas conversas, como foi linda a participação dele no VEJA Música - na qual, em poucos minutos, decorou a letra e cantou One Line, de PJ Harvey. Foi dedicada a mim e fico muito feliz com isso. Catto tem um caminho musical inquieto que eu respeito e admiro. Nos últimos tempos, trocou sua versão crooner pela de roqueiro no álbum Catto, de 2017, com capa no melhor estilo Coney Island Baby. Seu último lançamento foi a participação no single de outra pessoa muito querida, Daniel Peixoto, que foi do duo Montage. Eles fizeram uma nova versão de Postal de Amor, gravada anteriormente por Fagner e Ney Matogroso. Ah, meu querido, vou ainda batalhar pelo teu dueto com Roberta Miranda!!!!

Com vocês, Filipe Catto




O que você anda escutando nesse período tão estranho para todos nós?

Meditação no YouTube: uns asmrs, sinos tibetanos para conseguir acalmar a mente insana. Quando eu estou num momento emocional mais instável, eu gosto de ficar em silêncio e ouvir apenas o essencial. Venho me conectando com Joni Mitchel, Beth Gibbons, Cat Power, que trazem esse silêncio sabe? Estou acompanhando também as amigas no Instagram postando as músicas de voz e violão em casa. Me toca muito profundamente. Esses dias vi a Liniker cantando Tim Maia, dei uma chorada. É um momento que eu estou me sentindo muito dilatada, então a música está me servindo de cobertor outra vez. Fazia tempo que a gente não sentia o poder de cura da arte como agora. Fica muito difícil atacar a cultura quando nossos artistas estão generosamente trabalhando de graça pra manter as pessoas saudáveis em casa enquanto essas igrejas picaretas incentivam a aglomeração e mesmo assim continuam recebendo isenção de impostos num estado laico que aparentemente adora igreja e odeia artista. Vai entender... Por isso ouvir meus colegas cantando em casa de forma tão verdadeira enquanto o navio afunda na irresponsabilidade me comove profundamente. Tenho muito respeito pelos trabalhadores da cultura. Ali naquele vídeo de voz e violão tem uma pessoa sem perspectiva nenhuma de auxílio e que já está num lugar de muito ataque, muito boicote. O Brasil é um país que castiga o artista.



Você ainda encontra inspiração para produzir ou se dedica a outras atividades?

Eu tenho uma rotina bem caseira já há algum tempo, então a pandemia alterou pouco meus hábitos. Adoro acordar tranquilo, tomar um café, fumar um e escrever. Escrevo horrores, me vem imagens doidas, anoto os sonhos, desenho e aí vou que nem beija-flor. Trabalho um pouco nessa letra, naquela melodia. Eu vou fazendo tudo meio ao mesmo tempo, escrevendo a letra, produzindo os arranjos no garage band, produzindo os figurinos, tendo ideias pros vídeos, todo um drama. A arte pra mim é um ambiente plural. Uma coisa leva à outra. Um desenho leva a uma letra, um sonho leva a uma ideia de atmosfera pros sintetizadores. A minha vida se funde na forma como eu produzo, então procuro ter uma rotina saudável e tranquila pra trabalhar. Eu faço isso sempre e me mantenho ativo, porque é preciso estar sempre em movimento, tem muita coisa legal pra se fazer, especialmente com as oportunidades estéticas dessas novas plataformas. A gente vinha em um caminho equivocado onde pensava sempre na coisa marqueteira, que ser artista é sinônimo de números e não de ideias consistentes. Valem os números, não o conteúdo, os valores, a transgressão. Também se perde a oportunidade de usar essas plataformas pra propor ideias diferentes de interação e criação de arte. Não conteúdo: arte. A gente precisa falar mais sobre ARTE, porque a escassez dela é o que proporcionou essa massa acéfala e dessensibilizada. Existe uma ciência do sublime. A arte é curativa, existe uma necessidade da gente entender que nivelar tudo pela lógica do mercado, do que mais vende, do que é conveniente é subestimar milênios de estudo, de pesquisa, de prática e de descoberta do poder que a arte tem de despertar a consciência das pessoas. Não é sobre elitismo, mas sobre educação. O período pelo qual estamos passando irá afetar a tua maneira de compor?Definitivamente sim, porque estamos vivendo também uma revolução estética outra vez, é natural. Eu vejo o mundo de uma forma horizontal, onde a tecnologia empodera as pessoas a serem múltiplas, auto-suficientes e originais. Todo mundo vai ser artista em algum nível. As redes sociais trouxeram isso e explodiram esse conceito na última década. A diversidade é tanta que eu acho que o conteúdo íntimo, singular vai ser a única coisa que faz sentido. Eu percebo a beleza e a verdade das pessoas em suas casas cantando as lives, o público hoje quer ver as pessoas como elas são. Ou então ver como as pessoas performam radicalmente sua vida pra criar uma instalação de si mesmas na internet. Auto-expressão, sei lá. A gente que cresceu na virada do século sonhava com uma câmera pra poder se inventar e agora que está tudo aqui tem aquele conflito do que fazer com isso? É verdadeiro? É profundo? É meu? Então vai comunicar. Parecer é tão antiquado né? Então to investindo em terapia, em cura, pra poder entender melhor dentro de mim o que é essencial de ser dito, uma vez que tudo está aí tão na nossa cara o tempo todo. Eu sinto que não somente a quarentena mas os últimos 5 anos da minha vida me trouxeram pra um lugar de mais conforto comigo mesma e agora compor é um prazer, uma coisa luminosa e não uma forma de salvar minha alma da depressão e das minhas tendências auto-destrutivas de bicha triste existencial hahahaha.


https://www.facebook.com/filipecatto/

https://www.facebook.com/danielpeixoto

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