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  • Sérgio Martins

Gerson King Combo: o discurso do rei


Foram dois breves, porém essenciais, encontros com Gerson King Combo, o funk brother soul brasileiro, que nos deixou na manhã desta quarta-feira, dia 23 de setembro, de infecção generalizada. O primeiro se deu em sua casa, na zona norte do Rio de Janeiro, durante o período de entrevistas para o meu livro sobre soul brasileiro. Ali, ele me contou como se tornou uma das principais expressões da black music. Gerson Rodrigues Cortes era coreógrafo de programas como Hoje é Dia de Rock e Jovem Guarda. Durante uma viagem a Porto Rico, no final dos anos 60, ele assistiu a uma apresentação de James Brown e abrasileirou o estilo do pai do funk americano. Cortes passou a usar roupas vistosas, aprimorar seus passos de dança e suas piruetas e usar um linguagem próximo ao das gírias do mundo black dos Estados Unidos. Musicalmente, no entanto, essa mutação custou a aparecer. O cantor a princípio era adepto da pilantragem, um estilo eternizado por Wilson Simonal, que se assemelhava mais a um samba acelerado e com toques latinos do que a pulsação do funk (aliás, os Diagonais, banda de Cassiano, também fazia esse estilo).



A mutação de Gerson Rodrigues Cortes para Gerson King Combo se deu em 1977, quando lançou seu primeiro álbum na gravadora Phillips. Consta que Roberto Menescal, então, diretor artístico da companhia, queria um cantor para fazer frente à Tim Maia, que tinha saído do selo durante sua fase mística - mas que aos poucos estava voltando ao reino do sacolejo - e Toni Tornado, então uma das maiores expressões do funk no país. O esmero de Menescal contou ainda com a contratação da África, banda que arrebentava nos bailes de subúrbio do Rio. Contratados para "forrar" a vozeirão de King Combo, tempos depois eles seriam conhecidos como o grupo União Black.




Combo lançou dois álbuns, em 1977 e 1978, que até hoje são referência da qualidade do soul feito no Brasil. Não apenas pela riqueza instrumental, como também pela linguagem, que era muito próxima ao discurso de afirmação dos negros americanos. A censura, claro, ficou de olho. "Eu tinha uma canção na qual dizia: 'Chega de ismos!' e o Menescal achou que eles podiam encrencar com a gente", confessou, durante nosso bate papo. Mas dona Solange, representante máxima do órgão nos tempos da ditadura militar, aparentemente não se importou com as palavras de ordem contidas em Mandamentos Black e Funk Brother Soul. Disputados a tapa pelos colecionadores de vinis, no final da década de 90 eles foram recuperados e lançados em CD pelo ex-titã Charles Gavin.



A chegada da discoteca e a falta de sucesso comercial do Black Rio, movimento do qual King Combo fez parte ao lado de gente como os cantores Carlos Dafé, Hyldon e Cassiano (pioneiros do gênero) e grupos como Táxi e Banda Black Rio relegou o soul brother aos compactos - que incluiu até uma "homenagem" a Mão Branca, lendário justiceiro dos anos 70 no Rio e um funk natalino. Em 1998 me orgulho de, ao lado de Pedro Só, fazer uma extensa matéria na revista BIZZ sobre os papas do soul e funk brasileiros. Senhores Tempo Bom (o título fazia uma alusão a uma canção da dupla Thaíde e DJ Hum sobre a turma black daquele período) trazia King Combo ao lado de Carlos Dafé, Bedeu, Hyldon... Muita gente boa. Em 2001, a gravadora Paradoxx lançou Mensageiro da Paz, álbum no qual fazia duetos com Cidade Negra e Sandra de Sá e regravava Mandamentos Black.




A segunda conversa com Gerson King Combo se deu por telefone, em 2017. Em abril daquele ano ele tinha dado entrada no hospital por conta da diabetes - que veio a matá-lo. Combo estava animado com seu retorno aos palcos e tinha esperanças que finalmente os documentários feitos sobre sua vida viessem à luz do dia. "Fizeram três. Dá para juntar eles e fazer um belo longa", brincou. A sua morte, aos 76 anos, sensibiliza todos aqueles cuja auto-estima aumentou muito por conta dos discursos do soulman sobre negritude.

Eu te amo, bróder Gerson.



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