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  • Sérgio Martins

Música erudita é inacessível? Pois escute John Adams!


Num jantar com o compositor chinês Tan Dun, em 2002, eu comentei com ele sobre a minha situação de crítico popular que recentemente havia abraçado a função de escriba erudito. E que embora gênios como Beethoven, Wagner e Bruckner – minha porta de entrada para este universo, visto que assisti aos ensaios de sua Oitava Sinfonia com a Filarmônica de Berlim, em 2000 trouxessem uma energia similar à de um concerto de rock, eu ainda encontrava dificuldades de assimilar esse mundo. “Você tem então de escutar John Adams”, me disse Tan Dun, Oscar de melhor trilha sonora por O Tigre e o Dragão. “Ele sabe unir essas linguages como ninguém”. Adams, cujo Must the Devil Have all Good Tunes?, um Concerto para Piano, gravado por Yuja Wang ao lado da Filarmônica de Los Angeles sob a regência de Gustavo Dudamel, chegou há pouco nas (ainda existem?) e plataformas de streaming, é um caso exemplar de erudito pop. Suas criações absorvem a música do seu tempo, como o jazz, que também inspirou Maurice Ravel e Leonard Bernstein, o rock e até a música eletrônica, o que faz ser assimilado por fãs e artistas de outros estilos.


As origens de Adams, formado em composição pela Universidade de Harvard, estão no minimalismo, escola musical surgida no início do século XX, baseada na repetição de notas. Shaker Loops, de 1978, foi sua primeira criação a fazer sucesso no meio. Gravada por instrumentistas como o violonista Gideon Kramer ao lado da Sinfônica de Londres e com regência de Kent Nagano, ela se caracteriza por violinos sobrepostos, o que nos dá a impressão de assistirmos à trilha de uma pedra sendo jogada na água, formando pequenas ondas. A popularidade da obra rendeu a sua utilização em Barfly, filme estrelado por Mickey Rourke e baseado nos escritos de Charles Bukowski, e uma gravação de Jon Anderson, eterno vocalista do Yes. Adams, posteriormente, iria romper com as amarras minimalistas, partindo para criações mais ambiciosas. Casos das óperas Nixon in China e Death of a Klinghoffer. Esta última não só utiliza elementos de música do Oriente Médio como aborda um caso polêmico: o assassinato de um turista judeu por terroristas palestinos. O imbroglio se dá porque Adams e sua libretista, Alice Williams, adotam uma postura condescendente em relação aos assassinos. Eles seriam uma espécie de “vítimas do sistema”. Embora tenha estreado em 1991, Death of a Klinghoffer ainda causa desconforto nas plateias das casas de ópera. Tanto que uma mini-temporada na Metropolitan Opera House, de Nova York, foi interrompida por protestos da comunidade judaica. "Sabíamos que era um texto polêmico, mas se trata de uma peça importante demais para ser ignorada", diz Kent Nagano, maestro que estreou a polêmica obra.






John Adams ainda é um compositor relativamente desconhecido no Brasil, ainda que hajam esforços para a sua popularização. O maestro Roberto Minczuk, no início dos anos 2000, comandou a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) numa versão estupenda de On the Transmigration of Souls. Foi um réquiem encomendado pela Filarmônica de Nova York para as vítimas dos atentados de 11 de setembro, no qual o coro e a orquestra se mistura a depoimentos de parentes dos mortos e o som das ruas da cidade – que Adams captou num pequeno gravador, de madrugada. O mesmo Minczuk fez a estreia nacional de El Niño, um oratório de Natal que traz coro infantil e cujo texto tem a preocupação de retratar os imigrantes latinos no solo americano. A Osesp, por seu turno, continou a dedicar um espaço para John Adams. Ele esteve presente na estreia da regente Marin Alsop à frente do grupo, com sua Short Ride in a Fast Machine. A mesma Marin estreou o desigual Concerto para Saxofone, em 2014, na comemoração dos 60 anos da Osesp.





Eu tive a felicidade de assistir à estreia de duas obras de John Adams na Walt Disney Concert Hall, sede da Filarmônica de Los Angeles. The Dharma at the Big Sur, peça para orquestra e violino elétrico, foi tocada numa das récitas de estreia da casa, que custou 276 milhões de dólares. Em 2009, ele preparou City Noir, um concerto influenciado pelas big bands, para a estreia do venezuelano Gustavo Dudamel à frente do grupo sinfônico. O jazz também é a estrela de Must the Devil Have all Good Tunes?, com suas passagens inspiradas em obras de Gerwshin e até uma introdução que me fez lembrar de Peter Gunn, de Henry Mancini. Um veículo perfeito para Yuja Wang, pianista que há tempos tenta quebrar a barreira entre o público popular e o erudito. Que venha mais John Adams.



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