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  • Sérgio Martins

Minhas duas histórias prediletas de Little Richard


No final dos anos 50, Little Richard, tal e qual a letra de um sucesso de Ney Matogrosso, tinha deixado aquela vida de lado. Já não era mais um transviado, mas sim um cristão, que inclusive gravou discos gospel. Seu empresário da época, Don Arden, nunca aceitou a conversão de um de seus principais contratados. Durante uma excursão pela Inglaterra, no início dos anos 60, ele contratou o tecladista Billy Preston como integrante da banda do autor de Long Tall Sally. O golpe de misericórdia foi chamar o cantor Sam Cooke para abrir as apresentações da turnê de Little Richard. Cooke havia feito o caminho inverso: era um cantor gospel que descobriu o soul music. Suas performances combinavam a interpretação impecável com sensualidade e lascividade. Richard, ao se deparar com o efeito de Cooke no público feminino, se sentiu desafiado. Chamou Preston de lado, mudou todo o repertório do show e chicoteou o público com clássicos do rock'n'roll.



Little Richard e Jerry Lee Lewis foram convidados para um mesmo festival nos anos 70. Foi uma briga na hora de escolher quem fecharia a noite. Os promotores então se lembraram de um piti de Lewis que, ao perder essa primazia para Chuck Berry, tacou fogo no piano. Richard, então, concordou em ser a penúltima atração da festa. Fez um set matador e esquentou o público para Lee Lewis, que estava numa fase country. Quando o público começou a pedir Great Balls of Fire, Whole Lotta Shakin' Going On e Breathless, entre outros rocks, ele mandou a plateia para aquele lugar e disse que quem não estivesse satisfeito podia ir embora. Nesse momento, Richard entra em cena e avisa que está dando autógrafos no saguão do teatro. A turba então abandonou Lewis e foi tietar Little Richard.




Eu já era fascinado por Little Richard por conta dos clipes que assistia em programas de TV, da admiração confessa de Paul McCartney (que numa das biografias dos Beatles admitiu ter aprendido aqueles uooooooo agudos com o próprio) e audições contínuas de Georgia Peach, lançado no país nos anos 80 pela Movieplay. Mas essa biografia, que pode ser adquirida nos sebos da vida e de onde tirei essas duas histórias, só aumentou a minha admiração. Richard Wayne Pennyman, morto no sábado, dia 09, aos 87 anos, é um sobrevivente. Nasceu em Macon, no sul dos Estados Unidos. Era pobre, negro e homossexual num tempo e local em que isso era sentença de morte. O sucesso chegou na sua mistura de gospel, boogie woogie e rhythm'n'blues, martelados com fúria ao piano. Mas teve de se contentar com o fato de que as rádios não tocavam artistas de pele negra. E lá foi Patti Boone cantar Long Tall Sally e Tutti Frutti... Richard, contudo, rompeu essas barreiras e hoje é reconhecido como o grande arquiteto do rock'n'roll e seu primeiro astro andrógino. Escrita a partir de depoimentos do cantor para Charles White, A Vida e a Época de Little Richard é exagerada, fantasiosa e genial como o personagem que o inspirou.




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