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  • Sérgio Martins

Moraes Moreira, muito mais que um filho de João


A primeira lembrança que trago de Moraes Moreira é sentimental. Preta Pretinha, faixa de Acabou Chorare (1972),disco dos Novos Baianos, grupo do qual o cantor, compositor e violinista foi um dos fundadores, fazia parte do repertório das fitas que meu pai gravava no trabalho (ele trabalhava na seção de aparelhos de som de uma loja de deparamentos). Mesmo se não houvesse fita, eu jamais ficaria imune ao casamento da melodia de Moreira com a bela letra de Galvão: Preta Pretinha, ao lado de todas as canções daquele álbum, fizeram parte de quem viveu intensamente a década de 70. Me lembro de ter contado da minha admiração por essa composição durante o nosso primeiro e breve encontro nos bastidores do Acústico MTV, que ele gravou em 1995, num galpão do bairro paulistano da Barra Funda. Dias depois, mediei uma conversa entre ele e o filho Davi Moraes para uma matéria da finada SHOWBIZZ. Uma tarde deliciosa clicada pelo fotógrafo Jorge Rosenberg.



Moraes Moreira, contudo, vai além das minhas memórias da infância. Era um criador inquieto, inspirado, talentoso. Um dos chamados Filhos de João, por causa do amor incondicional pelo violão de João Gilberto, ele foi muito além do rótulo - que, claro, lhe cabia com toda justiça. Em mais de meio século de atividades, criou sambas, frevos, baladas, xotes, baiões; flertou com a música eletrônica, com o manguebit de Chico Science & Nação Zumbi e música erudita. Deu régua e compasso para a criação da axé music e foi gravado por cantoras de alta patente da MPB. Nascido em Ituaçu, cidade localizada a 470 quilômetros de Salvador, Moreira migrou para a capital baiana na década de 60. Galvão, seu parceiro de Novos Baianos, conta no livro Anos 70 - Novos e Baianos que mudou-se para a pensão de Dona Maritó, onde Moreira se hospedava, para criar um grupo e prosseguir com o legado dos tropicalistas, que então haviam se exilado. A primeira formação, além de Moreira e Galvão, incluía o guitarrista Pepeu Gomes e os vocalistas Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo. A nave dos baianos deu um pequeno rasante em São Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde moraram numa cobertura no bairro do Botafogo. Os Novos Baianos eram então uma banda de rock, como demonstrado no álbum É Ferro na Boneca e no show Os Novos Baianos e o Dilúvio Universal.


Foi na cobertura de Botafogo que o grupo recebeu João Gilberto e se encantou com o repertório de sambas do pai da bossa nova. Marília, ex-mulher de Paulinho Boca de Cantor, disse que Gilberto desfilou canção após canção e pedia que os baianos então o acompanhassem. "Vocês precisam olhar para dentro de vocês", decretou. A resposta ao conselho do bossa novista foi Acabou Chorare, de 1972, um dos discos fundamentais da história da música brasileira. O título teria nascido de uma frase de Bebel Gilberto, então uma bebê. Ela caiu no chão do sítio da zona oeste do Rio, para onde o grupo havia se mudado. Quando correram para acudi-la, Bebel aparentemente disse: "Acabou Chorare".



Moreira saiu dos Novos Baianos em 1975, em busca de maior espaço para suas criações. Sua pena se manteve mais afiada do que nunca, como se pode nota em álbuns como Moraes Moreira (1975), A Cara e a Coragem (1977) e Alto Falante (1977). Deste último se destaca Pombo Correio, uma canção instrumental do Trio Elétrico de Dodô & Osmar chamada Código Morse, que ele colocou letra e interpretou. Moreira fez outros sucessos para o trio como Vassourinha Elétrica. Lá Vem ao Brasil Descendo a Ladeira, de 1979, o consagrou como um compositor de ponta, a começar pela faixa-título, também nascida de uma conversa com João Gilberto."Lá vem o Brasil descendo a ladeira" teria sido uma frase proferida pelo violonista ao se deparar com uma mulata descendo o morro. Moreira passou a ser gravado por cantoras como Gal Costa (Bloco do Prazer e Festa do Interior) e Simone (Pão e Poesia). Os álbuns seguintes, em especial Bazar Brasileiro, o mantiveram em alta.








Moreira retomou a parceria com Pepeu Gomes no final dos 80 e início dos 90 e revisitou sua obra em formato acústico num formato para a MTV, em 1995. Inexplicavelmente inédito nas plataformas de streaming, ele tem versões belíssimas de muitos sucessos de Moreira, com arranjos do maestro e trombonista Vítor Santos. Estados, lançado no ano seguinte, é outro ponto alto de sua discografia por conta não apenas das belas canções, mas pelo toque eletrônico dado pelo percussionista e produtor Ramiro Musotto.





EM 1997, Moraes Moreira celebrou 30 anos de carreira com um show especial no Heineken Concerts. A apresentação contou com diversos integrantes dos Novos Baianos e iniciou uma conversa para um provável retorno, que se deu em 1998 e depois em 2016. Moreira, contudo, não viveu do passado. Sua produção discográfica entre esses dois retornos são igualmente importantes. Seja na hora de revisitar a literatura de cordel (Ser Tão, de 2018) ou num disco gravado com o filho, o guitarrista Davi Moraes (Nossa Parceria, de 2015). O cantor e compositor morreu na madrugada de segund-feira, aparentemente de ataque cardíaco. Dias antes, tinha colocado em seu perfil no Instagram a letra de um cordel sobre o Coronavírus. Antônio Moraes Pires, o Moraes Moreira, foi um filho de João. Mas pai musical de outro tanto de artistas relevantes da MPB e do pop brasileiros.

https://www.instagram.com/p/B94udhhlCJG/






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