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  • Sérgio Martins

Nando Reis: "É desalentador o que estamos vivendo aqui"


"Por que você quer saber tanto sobre a minha voz?" questiona Nando Reis quando pergunto sobre suas habilidades vocais. Estamos em 1995 e o então Titã acaba de lançar 12 de Janeiro, seu primeiro álbum solo. Digo então que, embora muita gente não goste da voz ele, eu acho que ela funciona que é uma beleza na hora de cantar reggae. Reis explica então que essa questão por muito tempo abalou sua auto-confiança. A salvação chegou através de um disco de Neil Young. "Descobri que a mensagem era mais importante que um vocal afinado", confessou ele, que após essa descoberta gravou A Menina e o Passarinho de um fôlego só. Em um quarto de século, meu relacionamento com Nando Reis sofreu um abalo aqui, outro acolá. Mas houve sempre um respeito profissional e guardo com carinho os momentos em que a relação jornalista/músico descambou para um relacionamento entre dois fãs de música. Certa vez, eu o presenteei com um East of the River Nile, disco do papa do dub Augustus Pablo. Em troca, recebi uma linda edição japonesa de Lugar Comum, de João Donato, comprados na extinta Modern Sound, no Rio de Janeiro.

Sou fã não apenas do Nando Reis reggaeman, mas também do trovador folk que ele se tornou. Admiro muito o compositor talentoso que ele viria a se tornar: das parcerias com Marisa Monte (que renderam Cor de Rosa e Carvão, o meu predileto dela), às letras para o grupo Skank e finalmente o encontro com Cássia Eller, sua melhor intérprete. Gosto de como essa vertente folk pop country rock iniciada por Nando desembocou em talentos como a dupla Anavitória, que nunca escondeu sua admiração pelo ex-Titã. E finalmente acho Jardim/Pomar, seu último disco de inéditas, de uma beleza ímpar - em especial 4 de Março, que ele fez para sua mulher, Vânia. Só uma coisa ainda me intriga, Nando: que raio de disco raro do Bunny Wailer é esse que o Jai Mahal disse que você tem e até agora nunca me mostrou? Com vocês, Nando Reis em Canções do Confinamento.






O que você anda escutando nesse período tão estranho para todos nós?

Tenho escutado pouca música, mas nessa semana estou ouvindo pela bilionésima vez na vida All Things Must Past, do George Harrison.



Você ainda encontra inspiração para produzir ou se dedica a outras atividades? 

Depois de ficar 40 dias sem pegar no violão, essa semana voltei a tocar compulsivamente e acabei compondo uma música. Somado ao fato desse momento não ser nada inspirador, acabei aproveitando para descansar, fazendo outras coisas. Venho de anos seguidos de muitas viagens, turnês seguidas, o que provoca um enorme cansaço físico e mental.

O período pelo qual estamos passando irá afetar a tua maneira de compor? 

Não sei dizer. Tudo que acontece ao nosso em torno, o que acontece na vida, nos afeta de um modo ou de outro. A música que acabei de escrever tem a ver com o que estou (estamos) passando, mas também transcende a isso, indo além. Não há como escapar da realidade, nem do inconsciente. Ou talvez seja exatamente o contrário: trata-se justamente de escapar e sublimá-lo. O que estamos vivendo no Brasil é desalentador.



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