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  • Sérgio Martins

O Evangelho punk segundo Iggy Pop


Na próxima quarta-feira, dia 23 de abril, completam-se 44 anos do lançamento do álbum que, para muitos, é o marco zero do punk rock: Ramones, estreia do quarteto formado por Johnny (guitarra), Joey (vocais), Dee Dee (baixo) e Tommy, todos com o sobrenome Ramone. São catorze músicas, enfiadas em pouco mais de 29 minutos enfiados no LP de vinil, com letras sobre deliquência, inadequação social, drogas e prostituição, tocadas com toda velocidade e fúria que aquele período exigia. Existem diversas maneiras de se comemorar esse feito. Para mim, a melhor delas é assistir à Punk, documentário de quatro episódios em cartaz na Globoplay, e que trazem um bom retrato do gênero.

Punk estreou em março de 2019 na canal americano Epix e tem produção de Iggy Pop e do estilista John Varvatos. A presença de Varvatos, contudo, causou incômodo: afinal, ele comprou o CBGB, lendária casa de shows de Nova York e um dos nascedouros do movimento, numa boutique estilizada. "Nem tudo aconteceu no CBG, houve outros locais emblemáticos para o punk rock", minimizou Pop numa entrevista para o jornal The New York Times. Batizado como "o padrinho do punk rock", epíteto que ele abraça com gosto, ele certamente criou o molde para os artistas do gênero com sua atitude insolente e agressiva, aliada aos melhores barulhos e distorções que sua banda, The Stooges, foram capaz de produzir. O primeiro capitulo de Punk é exatamente sobre o rock de garagem de Detroit - The Stooges e MC5, acima de tudo - e como ele reverberou na Nova York dos anos 70. O segundo capítulo é dedicado ao punk inglês.

Embora as cenas de arquivo e os depoimentos dos dois primeiros capítulos sejam deslumbrantes, são no terceiro e quarto episódios que punk traz suas melhores qualidades - e, infelizmente, defeitos. Muitas das tentativas de se recontar além dessa história nunca vão além da dissolução dos Sex Pistols. Pois Punk traz à tona bandas importantes, como os Bad Brains, e toda a cena hardcore de Los Angeles. E mostra que, embora aliado à anarquia, o movimento tem grandes momentos de conscientizações. Ian McaKaye, por exemplo, fala de como negociou com um bar para assistir suas bandas favoritas. Como o local vendia bebidas alcoólicas e os menores não são permitidos nesse tipo de estabelecimento, ele se encarregou de cuidar para que ninguém menor de 21 anos bebesse para assistir às suas bandas favoritas. Outro ponto crucial é mostrar como o aumento da violência e do consumo de drogas prejudicou a propagação do punk rock.

O quarto capítulo é dedicado à nova ascensão do punk rock, iniciada com Nirvana e propagada por bandas como Offspring e Green Day, que o colocam no auge da popularidade. O tratamento dado ao Green Day - e olha que fui um dos entusiastas do Dookie - se transforma numa peça de deslumbramento. Eles são vistos como se fossem os Beatles pela maioria dos entrevistados. Falta um olhar mais crítico, talvez um "baixada" de bola nessa euforia toda. Punk ainda causa um desconforto pela omissão do Husker Du, que para mim foi um dos grandes nomes desse movimento e que influenciou até Billie Joe, do próprio Green Day (me lembro numa entrevista que fiz com ele para a BIZZ e na qual ficou todo feliz quando eu comparei as melodias do Green Day às do Husker Du). Mas Punk é um documentário essencial para quem quiser entender o gênero além de Ramones e Sex Pistols. E, além disso, tem os insultos imperdíveis de John Lydon. "Claro que o punk ainda existe. Não estou aqui?"



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