Buscar
  • Sérgio Martins

Os sujeitos mais odiosos do hard rock

Atualizado: 2 de Abr de 2020



Em 1985, quando o jornalista americano Stephen Davis lançou Hammer of the Gods, biografia não autorizada do Led Zeppelin, os fãs da literatura roqueira tinham certeza que aquele era o ponto mais baixo de degradação ao qual uma banda poderia chegar. Era um prato cheio: tinha drogas, em especial,a heroína, bebedeiras, brigas, espancamento, magia negra e até um cação utilizado como instrumento fálico. Pois perto de The Dirt (Editora Belas Letras; 448 páginas, 84,90 reais), a compilação de todos os fatos escabrosos da carreira do Led Zeppelin não passa de uma reedição de O Caminho Suave, aquele livro de alfabetização dos anos 70. Escrita por Neil Strauss, ex-crítico de música do jornal The New York Times, a saga do quarteto americano Motley Crue é uma sucessão de torpezas. Eles fizeram em dobro, em triplo, em um milhão fatorial tudo o que o grupo de rock inglês fez, mas com uma exceção: jamais demonstraram qualquer sinal de arrependimento.

Nikki Sixx (baixo), Tommy Lee (bateria), Mick Mars (guitarra) e Vince Neil (vocais) são frutos de um período peculiar da saga do rock pesado - o hair metal. Uma das teorias para o nascimento desse subgênero é que ele surgiu com o Van Halen, que unia a destreza do guitarrista Eddie Van Halen com as roupas espalhafatosas e uma certa ambiguidade sexual do vocalista David Lee Roth. Mas havia um quê do movimento glam, principalmente no que se refere ao uso de muita maquiagem. Sixx definiu o grupo como uma mistura de Sex Pistols com David Bowie, contudo há de se reconhecer influências do rock'n'roll divertido de Kiss e Cheap Trick. O habitat do Motley e de todas as bandas do gênero - Poison, Ratt, Cinderella etc - era a cidade de Los Angeles, em especial as boates na região da Sunset Strip. Presente durante grande parte dos anos 80, o hair metal foi relegado ao ostracismo na década seguinte, com a chegada do grunge.



O Motley Crue foi a banda mais bem-sucedida dessa vertente porque tinha as canções mais grudentas, uma ótima presença de palco e dois instrumentistas que se sobressaiam num meio em que tocar bem é essencial - o guitarrista Mick Mars e o baterista Tommy Lee. Traduzindo, eles tinham um guitar hero de primeira qualidade e um espancador de peles e pratos que parecia uma versão com laquê e batom de Keith Moon, lendário baterista do Who (inclusive na atitude destrutiva). Em 1983 eles soltaram, de modo independente, o álbum Too Fast for Love. A boa aceitação do LP e mais o boca-a-boca de suas boas performances no palco fizeram com o que o grupo fosse contratado pela gravadora Warner. A parceria rendeu mais de 100 milhões de discos vendidos, uma discografia um tanto irregular e hits incontestáveis como Dr. Feelgood, Girls Girls Girls e a balada Home Sweet Home. O Motley anunciou o término de suas atividades em 2015, mas deverá retornar aos palcos este ano (será?) numa turnê caça-níqueis ao lado do Poison.





The Dirt aborda a história do Motley Crue até o início da década passada, quando Lee havia sido substituído por Randy Castillo. Strauss, entrevistador experiente que hoje trabalha como conselheiro amoroso, fez uso de um recurso saboroso. Ele deu voz a todos os integrantes do grupo - e alguns personagens -, que contaram sua visão pessoal dos fatos. Cabe ao leitor decidir quem está menos errado nessa história. Por exemplo, enquanto Vince Neil confessa que fez sexo com a namorada de um executivo da gravadora no banheiro (detalhe: um executivo que brigou como nunca pela banda dentro da companhia), Strauss busca o sujeito para saber de como ele se sentiu com essa traição. Detalhe: ele não sabia que isso tinha acontecido. Pamela Anderson, ex-Baywatch, havia sido namorada de Vince Neil antes de se casar com Tommy Lee. "Eu nunca gostei da Pamela, parecia com aquelas vagabundas que saiam com o Vince. Peraí, ela ERA uma das vagabundas que saíam com o Lee", confessa Sixx. As desventuras são muitas. Neil deu uma volta de carro completamente bêbado, se envolveu num acidente e matou seu amigo, o vocalista do grupo de hard rock Hanoi Rocks. Pouco tempo depois, repetiria essa situações muitas e muitas vezes. Tommy Lee (cujo órgão sexual foi descrito por Ozzy Osbourne como "o braço de um bebê segurando uma maçã") fez sexo com uma fã no meio da sala, na presença de todos, porque queria dar uma volta no carro importado da garota. Nikki Sixx, viciado em heroína, quase foi à morte depois de uma balada com Slash, guitarrista do Guns N' Roses. Quando finalmente foi para casa, teve outra overdose. São histórias narradas sem um pingo de arrependimento ou vergonha. Pelo contrário, se orgulham dessas proezas como um aluno rebelde contente por ter colocado uma tachinha na cadeira da professora que lhe deu nota zero.

The Dirt virou uma cinebiografia, que está à disposição para streaming na Netflix. Mas aquelas figuras odiosas viraram uns sujeitos inconsequentes e meio bobões. Contudo, existe até uma ponta de verdade nessa falta de parafuso. Duas décadas atrás, eu entrevistei Tommy Lee para a revista BIZZ. Completamente bêbado, drogado ou ambas as coisas, ele prometeu encher de pauladas Lars Ulrich, baterista do Metallica, porque este tinha criticado uma aparição do Motley Crue na MTV, quando se apresentaram com playback. "Os discos ao vivo deles são refeitos em estúdio porque os caras não tocam nada", disparou. Lee tinha virado notícia porque uma fita de VHS contendo cenas de sexo dele com Pamela Anderson havia sido roubada de sua casa, se transformado em VHS pirata e corrido o mundo, fazendo a alegria dos onanistas de plantão. "Acabo de comprar um rifle. Quero ver quem será o próximo vagabundo que terá a coragem de me roubar", disparou. Led Zeppelin era uma banda selvagem? Sei..




298 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

(5511) 99127-8997

©2020 por SergioMartins. Orgulhosamente criado com Wix.com