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  • Sérgio Martins

Paulo Baron: "Os produtores amadores terão de pular fora"


Não encare como entrevista, mas sim como bate papo entre amigos. Paulo Baron é um dos principais empresários do ramo de shows internacionais no país, mas também uma grande companhia para um bate papo regado a vinho - ou tequila, como ele gosta. Dividimos bons momentos, como no camarim do show de Dee Snider, ou mais recentemente num papo sobe crítica musical promovido pelo amigo Regis Tadeu e que contou com a participação do querido Ricardo Batalha. No ano passado, Baron lançou sua autobiografia, Rocking All My Dreams (Editora Inverso; 242 páginas, 50 reais), no qual conta suas aventuras ao lado dos maiores nomes do rock internacional e nacional. Eu não quis colocar todas as histórias porque é melhor lê-las no livro, que ganhou uma versão em inglês no formato Kindle, no qual parece você estar ouvindo da boca do próprio Paulo. Preferi comentar sobre os novos caminhos do showbiz em tempos de Coronavírus e algumas curiosidades pessoais. Antes de tudo, essa entrevista foi realizada graças ao empenho de duas pessoas queridas: Damaris Hoffman, que fez a ponte entre mim e Paulo (nossa amizade foi um presente teu!) e Cecília Gomes, atual assessora da Top Link, empresa do Paulo, que intermediou essa nova conversa. Com vocês, Paulo Baron.

Eu queria começar nossa entrevista com um capítulo que obviamente estará na próxima edição do teu livro. Como você está lidando com esse período complicado? Como os artistas estão reagindo aos cancelamentos e que tipo de atitude eles tomaram, visto que um adiamento ainda envolve custos como passagens e vistos?

O coronavírus é algo nunca antes vivenciado. Durante os 31 anos que vou completar de show business, vi situações acontecendo em diferentes países onde eu fazia shows, problemas econômicos, problemas políticos quando um país se fechou e não era possível mais fazer shows, por exemplo. Mas nunca vi algo similar, onde o mundo inteiro estivesse parado. É algo que nunca aconteceu, portanto estou vivenciando pela primeira vez.

A América Latina é apenas uma das rotas de uma agenda de shows para uma banda internacional. Os artistas internacionais normalmente passam pela Europa, Estados Unidos, Ásia, Austrália e por aí vai. Inclusive os shows que normalmente acontecem na América Latina são poucos, comparados com o resto do mundo. Esses grandes deslocamentos tornam à logística bem mais complicada, porque todo o mundo está precisando resolver, então às vezes lidar com os managers ou bookings para mudar as datas não é tão simples.

Em relação às passagens de avião, isso tem sido um verdadeiro desastre. Principalmente no meu caso, porque gosto de me organizar com bastante antecedência. Compro as passagens com antecedência e pago os cachês bem antecipados. Mudar essas passagens não é uma tarefa fácil, as companhias também estão sendo prejudicadas, não querem perder o dinheiro que já estava garantido. É uma negociação caso a caso. Além disso, tem o fator de negociar com as casas de shows. E os shows que são em diferentes cidades, por exemplo, no caso para os shows que vão acontecer no Brasil, e isso é bem complicado, porque a regra em cada cidade é um pouco diferente.

Então em resumo: está sendo um trabalho desgastante demais, sem contar o desgaste psicológico. Essa temporada de novo coronavírus e quarentena eu já comecei a relatar para a segunda parte de Rocking All My Dreams.

Os tempos atuais não permitem mais a presença de aventureiro. Hoje um produtor de show tem de ter bala na agulha para se manter. Você acha que esse período vai afunilar ainda mais esse meio? Como isso vai se dar

Estamos vivendo tempos muito sombrios e com certeza os promotores que não tiverem estrutura terão de pular fora. Mas também me preocupa muito que produtores pequenos terminem dando algum golpe para o público. Espero que isso não aconteça, porque pode piorar ainda mais a situação do show business. Eu sempre digo que é muito importante que tenhamos novos promotores, mas eles têm de ir aos poucos. E eu só digo ao público que quando eles perceberem um promotor desconhecido, fazendo um show grande, é preciso verificar antes se essa pessoa é confiável, porque depois isso pode trazer vários problemas.

A tua história é fascinante porque é a realização de um sonho e serve de inspiração para outras pessoas. Qual o conselho que você daria para alguém que se encantou com teu caso e deseje entrar nesse ramo?

Eu começaria acreditando em mim mesmo, e sempre pensando em fazer as coisas sendo o mais certo possível. Mas para fazer uma coisa como eu fiz é preciso se preparar. Por mais que eu tenha começado muito jovem, com 18 anos, eu tinha um background por trás: meus pais viajavam muito por ser antropólogos e psicólogos, isso me ajudou muito. Eu estudei em duas faculdades e isso me trouxe um know how incrível, além de que meu hobby principal desde os 14 anos foi sempre assistir shows.

O produtor, antes de tudo, tem de ser pragmático: não traz a banda que ama, mas sim a banda que dá lucro. Houve casos em que se guiou pelo pragmatismo e ficou fã?

É muito louco isso, porque comigo aconteceu o contrário. Todas as bandas que eu fiz que eu gostava, mesmo com as que eu perdi dinheiro, eu fiquei feliz, porque me senti parte da história. Agora as raras ocasiões que fiz um artista que não gostava, e fiz para tentar ser pragmático, perdi dinheiro, e eu me arrependo até hoje. É engraçado isso.

Sempre tento trabalhar com os artistas que eu gosto, alguma coisa tenho que gostar neles, é importante para mim. Porque eu levo isso como se eu estivesse fazendo uma festa e convidando meus amigos para a festa. É assim que eu vejo meu show, engraçado de pensar, mas pelo menos isso me dá uma motivação para sempre seguir em frente.


Os artistas, em geral, vêem o produtor como uma parceria comercial, mas em muitos casos - Scorpions, Rudy Sarzo, Tarja - isso virou uma amizade sólida. Como isso acontece? Principalmente em relação aos nórdicos, que costumam ser mais frios...

Essas amizades foram conquistadas com o passar dos anos. Sempre respeitei o artista pelo que eles eram, mas nunca deixei de ser eu. Sou latino-americano: gosto de ser afetivo, de expressar meus sentimentos e falar para uma pessoa que eu gosto dela ou que eu amo ou que me preocupo. Acredito que este lado humano é diferente para muitos deles, que estão acostumados de quando chegam em um show o cara simplesmente faça sua grana, manda um abraço e sai. Eu busco contato humano, se não fosse por isso, nada valeria à pena.



Um dos momentos mais tristes do livro, para mim, é quando você faz o Heaven & Hell e descobre que o clima entre eles era péssimo e todos estavam ali por motivos comerciais. Você acha que essa esse baixo astral, pode até ter colaborado para a deterioração do estado de saúde do Dio?

Eu comento inclusive no livro que eu não assisti ao último show. Peguei um avião e voltei para casa. É uma coisa muito estranha de se falar, porque é uma banda que eu amava tanto, e um artista que eu tinha um relacionamento de amizade tão querido como o Ronnie, nunca teria feito isto. Mas eu via um clima muito estranho, que eu não conseguia entender e nem identificar. Bem diferente do que eu tinha vivido nas turnês com o Dio. Não sei se isso o fez piorar, mas todos sabemos que o câncer tem muito a ver com emoções ou coisas bem digeridas, não sei se esse seria o caso do Ronnie, mas não me parecia que ele estava feliz nessa turnê. Bem diferente da turnê com o Dio. Cheguei a falar inclusive para ele em algum momento nessa turnê, quando estávamos no carro juntos.



Você chegou a dar alguma bronca em artista que tratou mal um fã?

Várias. Já vi exemplos maravilhosos, como o próprio Dio, ter parado uma vez no aeroporto e assinado para mais de mil pessoas e dar a mão para cada um deles. Não é que isso seja uma obrigação dos artistas, mas é de se colocar no lugar do próximo que está vindo, às vezes, até de outra cidade ou de outro país e é uma coisa bem bonita de ser feita. Lógico, tudo tem suas regras, às vezes você está saindo para um show correndo, as vezes chegando de um aeroporto e tem vontade de ir ao banheiro, cada coisa tem seu lugar, mas se o artista pode, por que não fazer?

Uma das lendas mais comuns é que o empresário tem sempre de ser o malvado para que o artista seja o bonzinho. É verdade essa lenda? Você pode falar de algum "bonzinho" com quem você se decepcionou?

Muitos artistas utilizam realmente o empresário para ser o grosso, para ele mostrar o outro lado. O próprio caso do Zakk Wylde, eu vejo ele dessa maneira, ele tenta ser um bom político, mas na verdade ele faz tudo por trás, mesmo caso do Dave Mustaine. Existem vários caras que tem essa dupla personalidade.



Qual artista você trabalharia quantas vezes fosse necessário, ainda que ele não te desse um lucro vantajoso e por que? E qual artista você jamais trabalharia novamente, e sempre, ainda que ele "empatasse" na bilheteria.

Eu trabalharia quantas vezes pudesse com o Chuck Berry, claro se ele ainda fosse vivo, por um motivo simples: ele criou o rock'n'roll. Ter estado ao lado dele foi uma das coisas mais incríveis do mundo, mais importante inclusive do que ter feito um festival para mais de 40 mil pessoas ou shows para mais de 60 mil pessoas. 

Eu não trabalharia nunca mais com o Wes Scantlin do Puddle of Mudd, porque esse foi o cara mais irresponsável, grosso, mal-intencionado, pouco profissional que eu trabalhei na minha vida. Ele simplesmente indo para uma entrevista em um programa de TV importante aqui no Brasil, pulou do carro e desistiu de fazer a entrevista, depois chegou no show bêbado e não conseguia nem lembrar de suas próprias músicas e não conseguia cantar direito. E ainda não satisfeito, começou a brigar com o público e a xingar o público, e para finalizar, saiu do palco no meio do show. Eu tinha escutado coisas como essas em filmes e em matérias que aconteciam nos anos 80, quando as pessoas eram muito loucas. Não acreditei estar vivenciando uma coisa dessas em 2015, isso não se faz com ninguém.

Você entrevistou Rudy Sarzo, Dee Snider, Tarja Turunen.... Está querendo roubar nosso emprego ou isso é material para o Rocking All My Dreams Parte 2?

Hahaha nunca! Muito menos um cara como você que para mim é um dos melhores jornalistas que tem neste país. Apenas estou querendo mostrar o outro lado dos artistas, tem vários caras que são meus amigos, e sempre tive vontade de mostrar para as pessoas como seria uma conversa natural entre dois amigos, eu produtor e ele artista.  Queria também dar evidência às histórias no livro, sendo narradas pelas próprias pessoas, ampliando-as. É como dar vida para ele, alguns desses caras fizeram história no meu livro.

E isso também com o intuito como você falou de tentar criar algumas coisas para a segunda parte do meu livro, onde quero que ele tenha mais histórias que eu deixei por fora. Então é uma maneira também de colaborar com esse isolamento, ajuda também a me distrair, mas estou bem longe de ser um bom jornalista.





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