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  • Sérgio Martins

Penderecki e seu estilo "cinematográfico" de criação

Atualizado: 31 de Mar de 2020



O compositor polonês Krzysztof Penderecki morreu ontem sua casa, em Cracóvia, de causas não reveladas. Tinha 86 anos e uma carreira singular: influenciado inicialmente pelo atonalismo de Pierre Boulez e Anton Webern, ele se aproximou aos poucos de uma música formal – chegou até a criar canções natalinas –, o que gerou um boicote dos principais nomes daquela escola. O compositor foi companheiro de aulas de teatro de Karol Wojtyla, que tempos depois seria consagrado como Papa João Paulo II e criou temas religiosos não somente por devoção, mas também como uma forma de resistência ao governo russo, que então dominava a Polônia. “Quanto mais reprimiam os católicos, mais eu compunha”, disse ele para mim, numa entrevista realizada no começo da década passada. Uma dessas obras foi o Réquiem Polonês, que ele apresentou na Sala São Paulo à frente da Osesp e do coro, regido pela inesquecível Naomi Munakata. A missa fúnebre foi uma encomenda de Lech Walesa, fundador do Solidariedade, partido que enfrentou o governo comunista. Surgiu então Lacrimosa, que fazia alusão às repressões sofridas pela instituição. De 1980 até 1984, Penderecki foi criando trechos de obra até se tornar a beleza pela qual é conhecida.




Por muito tempo, a inclusão de obras de Penderecki era mais uma excentricidade do que reconhecimento de sua importância. Ele foi resgatado para as novas plateias por Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, que o reverenciou o polonês e usou muito de suas técnicas de composição para a trilha de Sangue Negro. O cinema, contudo, já tinha detectado a força de suas criações, ainda que à sua revelia. Numa entrevista que deu para mim (na qual confessou que não conhecia Radiohead, mas que era a banda predileta do filho), o compositor disse ter odiado o uso de suas peças pelos cineastas William Friedkin e Stanley Kubrick, que as usaram para criar o clima soturno de O Exorcista e O Iluminado. “Eram obras religiosas que foram usadas em filmes bobos de terror”, resmungou. O lamento pode ser até justo. Mas são exatamente as criações de Penderecki que ajudam a criar a sensação de horror que domina a família da menina Reagan em O Exorcista (Polymorphia parece tema de possessão) e a demência que toma conta de Jack Torrance em O Iluminado (vários temas, entre eles também Polymorphia). Threnody for the Victims of Hirosima, primeira composição a lhe dar projeção internacional, cai como uma luva em Filhos da Esperança, ficção-científica estrelada pelo inglês Clive Owen. Faz sentido: poucas criações retratam tão bem a sensação de devastação, vazio e medo do futuro quanto esta. E quando o cinesta polonês Andrew Wajda contou a história do massacre de Katyn, quando um batalhão de soldados de seu país foi friamente executado pelos nazistas, foi a Penderecki que ele recorreu. Escutam-se trechos de várias obras do compositor, entre elas o Réquiem Polonês. Melhor do que ler sobre Penderecki, no entanto, é escutá-lo. Abaixo, temos trechos de várias de suas composições cinematográficas.






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