Buscar
  • Sérgio Martins

Por que torcer pelo sucesso de Charles Bradley



O cantor americano Charles Bradley (1948-2017) teve o que podemos chamar de uma vida de cão. Nascido em Gainesville, cidade da Flórida, foi criado pela avó até que a mãe reapareceu e decidiu levá-lo com ela para Nova York - muito mais pela ajuda do governo do que qualquer tipo de afeto, diga-se. Bradley fez dos vagões do metrô de Nova York a sua cama e trabalhou de cozinheiro até que um amigo disse que ele se parecia com James Brown. E foi como cover do padrinho do funk que garantiu o seu sustento e da mãe, com quem havia voltado a se relacionar. Aos 62 anos, lançou seu disco de estreia pela Daptone Records, a mesma companhia da cantora Sharon Jones e do grupo de afrobeat Antibalas e pode finalmente viver de música. A luta de Charles Bradley pela sobrevivência e reconhecimento artístico são o mote de The Soul of America (Estados Unidos, 2012), em cartaz na Globoplay. Dirigido por Poull Brien, o documentário faz um bom uso da eterna história do sujeito que dá a volta por cima.


Bradley, ao lado de Sharon Jones, era um dos nomes de ponta da Daptone Records, gravadora americana especializada em soul e música africana. Criada pelo baixista e produtor Gabriel Roth, ela adotou em suas produções uma postura revivalista. Tinham um sabor dos anos 60, em especial o rhythm'n'blues do sul do país - a Stax, gravadora de Memphis que revelou, entre outros, Otis Redding e Isaac Hayes, é a influência mais óbvia. Pessoalmente, não tenho preconceitos com esse revival. Um dos meus subgêneros prediletos é o neo-soul, vertente surgida no início dos anos 90 através de cantores como Maxwell e D'Angelo. Mas não enxergo essa volta ao passado como evolução, ainda que adore a discografia da Daptone. Bradley tinha como referência o rebolado de James Brown e os gritos de Redding, daqueles que saem do fundo da alma. Mas ainda que suas canções fossem boas, ele conquistava o público muito mais pelo carisma que pela genialidade artística. Por exemplo: em 2013, durante uma performance no SXSW ao lado do cast da Daptone, encantou a plateia ao descer do palco ao final de sua apresentação e abraçar as pessoas. Mas quando Sharon Jones, que iria encerrar a noite, entrou no palco, com sua voz rascante e seu rebolado, duvido que alguém se lembrou de qualquer número que Bradley tivesse cantado. O soulman esteve duas vezes em São Paulo: a primeira em 2012, na Virada Cultural. Três anos depois, no Sesc Pompeia, também em São Paulo. Na segunda visita, ele parecia cansado e se contentou mais em dançar e fazer sua banda de apoio tocar do que cantar. Bradley morreu no dia 23 de setembro de 2017, de câncer no estômago. Tinha 68 anos.



Todo mundo adora uma história de redenção. E Soul of America é um prato cheio. Brien, que também dirigiu os videoclipes de Bradley, narra com talento a trajetória de um ser humano que lutou contra todas as adversidades trazidas pela pobreza e depois foi em busca de seu sonho. No melhor estilo do documentário verdade, técnica difundida pelos irmãos Albert e David Mayles (de Gimme Shelter, dos Rolling Stones), acompanha-se o dia-a-dia de Bradley, então às vésperas do lançamento de seu disco de estreia. A câmera o acompanha pelo conjunto residencial onde morava, numa parte barra-pesada do Brooklyn, e o mostra como um filho devotado ao preparar o jantar da mãe. Fala de seus dramas pessoais, como o assassinato de seu irmão mais velho, a expectativa do show de lançamento do álbum e até sua consagração como cantor. É mais uma história do ser humano que lutou e venceu suas adversidades do que algum tratado sobre soul music. Contudo, encanta do mesmo jeito. Porque não há pecado algum em torcer por um sujeito de coração tão bom como Charles Bradley.


48 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo