Buscar
  • Sérgio Martins

Quatro facetas de Ennio Morricone


O maestro italiano Ennio Morricone morreu na manhã de hoje, em Roma, em decorrência de uma queda sofrida em sua casa. Tinha 91 anos e um currículo invejável: 500 trilhas sonoras de produções para cinema e televisão, uma parceria inesquecível com o cineasta Sergio Leone e um Oscar de melhor trilha sonora por Os Oito Odiados, produção de Quentin Tarantino de 2016. Foi ao lado de Leone, aliás, que ele eternizou seus temas mais célebres: os de western spaghetti, produções de faroeste de baixo orçamento, que não apenas consagraram a figura do herói de cara dura e de poucas palavras de Clint Eastwood, como caiu no gosto das bandas de rock - Metallica e Ramones, que usaram The Ecstasy of Gold, do filme Três Homens em Conflito, como tema de suas apresentações. Morricone achava que essas criações estavam entre as piores músicas que ele compôs e os piores filmes de Leone - evidentemente, um exagero do maestro.

Morricone é famoso pelos seus temas melódicos, mas também foi um criador ousado. Em Era Uma Vez no Oeste, por exemplo, a trilha do duelo do personagem de Charles Bronson na estação de trem, foi toda composta a partir de ruídos - o ranger do moinho, o barulho da água... O maestro teve essa ideia após assistir a um recital de obras de Luciano Berio, um compositor erudito do século XX. Embora as músicas de trilhas como Cinema Paradiso, Era uma Vez na América e Os Intocáveis estão entre as suas melhores obras, Morricone também se aventurou pelo terreno da música dissonante e flertou com o erudito. Abaixo, alguns exemplos de como o compositor italiano foi além do trivial.

IO, ENNIO MORRICONE (2002)

Ennio Morricone dizia que o grande "erro" de seu compatriota Nino Rota foi se dedicar demais ao cancioneiro popular, que fez tão bem nas produções de Federico Fellini, ao invés de aprimorar seu talento na seara erudita. Morricone atuou em todas as áreas, das trilhas populares ao erudito. Criações que estão reunidas nessa caixa de quatro CDs, que traz os temas mais famosos do compositor ao lado de música e câmara, música para piano e um concerto para guitarra e marimba (!!!!).




PSICHEDELICO JAZZISTICO (2004)


Ennio Morricone era um autor de seu tempo. Quando lhe foi conveniente, flertou com a música pop. A compilação traz temas de produções do final dos anos 60 e início dos 70, quando brincou com o jazz, a música psicodélica e até a música negra, em filmes de baixo orçamento. Uma adorável brincadeira estilística.





ENNIO MORRICONE - CRIME AND DISSONANCE (2005)

Coletânea da Ipecac, gravadora de Mike Patton, vocalista do Faith no More e do Fantomas. E como tudo referente à Patton, a esquisitice predomina. Temas de filmes sanguinolentos (os populares giallo), altamente dissonantes e assustadores. Como os de O Pássaro das Plumas de Cristal, do cineasta Dario Argento. Evte escutar sozinho e à noite porque essa audição o fará morrer de medo em meio às cobertas.




YO-YO MA PLAYS ENNIO MORRICONE (2004)

O tal crossover, onde o universo erudito cruza com o popular, costuma ser um terreno pantanoso e por vezes derrapa em versões de mau gosto. Mas Yo-Yo Ma, o maior nome do violoncelo na atualidade, nunca caiu na tentação da banalidade. Em meio a temas conhecidos como os de Cinema Paradiso e A Missão, ele pinça maravilhas como a música de Uma Simples Formalidade e A Rebelde. A recriação de Era uma vez no Oeste provoca choro compulsivo no mais ogro dos seres.




69 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

(5511) 99127-8997

©2020 por SergioMartins. Orgulhosamente criado com Wix.com