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  • Sérgio Martins

Rômulo Fróes: "Me dá uma melodia aí!"


Pedi três respostas curtas, ele me mandou um tratado. Estou reclamando? Claro que não, Rômulo Fróes é bom de prosa e tem sempre coisas interessantes para dizer. O papo - aqui, virtual - rende indicações de discos e uma boa pensata sobre os tempos atuais e o que nos espera. Com vocês Rômulo Fróes.

O que você anda escutando nesse período tão estranho para todos nós?

Minha principal maneira de ouvir música é pelo celular, durante minhas caminhadas matinais ou nos meus trajetos de ônibus pela cidade, portanto essa quarentena mudou bastante minha escuta, já não tenho a mesma atenção para ouvir um disco, que esses momentos solitários com meus fones de ouvido me proporcionam. Em casa, ouvir um som, significa colocar um fundo musical para realizar outras atividades. Mas tirando o fato de estar acionando mais minha vitrola, o que me faz ter acesso a minha antiga coleção de vinis e ouvir coisas que já não ouvia há muito tempo, minha escuta permanece a mesma e posso dividi-la em três principais categorias. A primeira, é a escuta dos trabalhos em que eu esteja envolvido, seja o meu próprio trabalho autoral, sejam minhas produções com outros artistas. Neste momento, por exemplo, estou em processo de finalização de três discos que estou fazendo a direção artística, os novos trabalhos dos cantores e compositores Rodrigo Vellozo e Morris e o primeiro disco solo do meu parceiro das antigas Guilherme Held, todos discos que devem sair em breve. A segunda categoria, são os lançamentos, sobretudo dos artistas que fazem parte do nicho ao qual me insiro, seja por interesse estético, mas também profissional, procuro sempre manter minha escuta atualizada. Nesse contexto, tenho ouvido muito o novo trabalho da minha parceira, artista por quem mantenho imensa admiração, Juliana Perdigão, que acaba de lançar um disco fabuloso chamado Dúvidas. Outra artista que ando encantado, descoberta do último ano, é a Ana Frango Elétrico, que já lançou dois discos fantásticos, Mormaço Queima e Little Eletric Ckicken Heart. Há muito tempo não ouvia alguém com uma imaginação cancional tão poderosa quanto a dela.

Outros dois lançamentos recentes que não saem do meu ouvido e que, mesmo assumindo minha enorme suspeição, posso afirmar que já entraram para o rol das obras-primas da música popular brasileira, são os discos dos meus parceiros Thiago França, com seu KDVCS e o Rastilho de Kiko Dinucci, dois discaços, do começo ao fim! Por fim, a terceira categoria é a dos heróis, daqueles discos que nos salvam a vida, ainda mais durante esse período tão duro pelo qual estamos passando e duas discografias em especial me andam trazendo algum alento nessa quarentena, a de Milton Nascimento, sobretudo seus discos lançados na década de 1970 e a de Djavan, em especial seus discos lançados desde sua estreia em 1976 até Novena, disco lançado em 1994, pouco comentado em sua discografia e que eu acho espetacular. Milton e Djavan, sempre me salvam a vida!





Você ainda encontra inspiração para compor ou se dedica a outras atividades?

Primeiro é preciso explicar a situação em que me encontro. Estamos em quarentena eu, Alice, minha mulher, que está trabalhando normalmente, já que o trabalho dela permite ser realizado remotamente e Olga, nossa filha, que recém completou quatro anos de idade, comemorados numa festinha via internet e que permanece em casa em tempo integral, já que as escolas estão em recesso. O primeiro desafio, meu e de Alice, é ocupar a pequena por pelo menos dez horas do dia, em um apartamento sem área social, tentando evitar ao máximo deixá-la prostrada diante da tela da TV, celular ou computador. Portanto, em resposta a sua pergunta, não sobra muito tempo para outras atividades que não seja agitar a rotina da nossa pequena. Todos os dias recebo dicas dos amigos, falando de sites de filmes e séries que estão com sua programação aberta durante a quarentena, ou dos livros que estão lendo, a que respondo estar sem tempo, por mais paradoxal que seja essa resposta. Longe de ser uma reclamação, posso afirmar que é essa rotina, com sua ocupação em tempo integral, que não está me deixando desanimar por completo diante dessa triste realidade que estamos atravessando. Dito isso, no que se refere a minha profissão, o que tenho conseguido fazer em meio aos muitos afazeres domésticos é escrever letras para melodias enviadas por meus parceiros. Uma vez memorizada a melodia, sou capaz de pensar em uma letra enquanto brinco com Olga, faxino a casa ou lavo a louça. Já compus seis novas canções desde o início da quarentena e quero escrever ainda mais. Você compositor, compositora, que está lendo esta entrevista e quer uma letra minha para uma melodia sua, por favor, cartas para a redação! Risos


Esse período pelo qual estamos passando irá afetar a tua maneira de compor?

Eu acho que vai afetar nossa maneira de viver, acho que nossas vidas não serão as mesmas depois que passar essa pandemia. Mais do que a criação, acho que os meios de produção sofrerão uma transformação que ainda não podemos sequer imaginar qual será, da importância das grandes revoluções da indústria cultural, só que desta vez não se dará através do avanço das tecnologias e sim, pelos novos modos de nos relacionarmos em sociedade. Não consigo me imaginar indo a um show, com qualquer nível de aglomeração, grande ou pequena, no dia seguinte ao término da quarentena. Acho que vai demorar muito mais tempo ainda para voltarmos a nossa rotina pré-pandemia, se é que voltaremos algum dia. Neste sentido, é claro que minha canção se contaminará por essa nova era, mas neste momento, trancado neste apartamento, não faço a menor ideia no que ela se transformará.

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