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  • Sérgio Martins

Roger Waters e uma trilha à prova de mito

Atualizado: 23 de Jun de 2020


Em 24 de outubro de 2018, a poucos dias antes do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, Roger Waters deu prosseguimento à turnê brasileira do show Us + Them com uma apresentação no estádio do Maracanã, no Rio. Performances do cantor e baixista, um dos fundadores do Pink Floyd, sempre trazem um manifesto político, e daquela vez não tinha como ser diferente: ele trouxe ao palco Mônica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco, assassinada barbaramente em março daquele ano, num crime que até hoje não foi solucionado. Um momento tocante, exceto para um grupo de expectadores com os quais eu tive a infelicidade de dividir o vagão do metrô, na viagem de volta para o hotel onde estava hospedado. Com corpos moldados por horas de musculação, eles se referiam à Marielle com termos pouco elogiosos, chamaram Waters de gagá e ultrapassado e a cada parada saudavam os amigos que desciam na estação aos gritos de "mito". O "mito", claro, era Jair Bolsonaro, que quatro dias depois foi eleito presidente do país, com 55,13% dos votos disponíveis. E hoje, frente ao desastre de sua administração, vejo naquela apresentação uma mostra de como os bárbaros odeiam a arte e as diferenças.



Us + Them foi transformado em filme, com direção do próprio Waters e de Sean Evans, um habitual colaborador do músico. Ganha um lançamento nas mídias tradicionais - leia-se DVD, Blu Ray, CD e vinil - no dia 02 de outubro, mas já está à disposição para streaming e compra na Apple TV, Google Play, NOW, Sky Play e Vivo Play. Trata-se de um espetáculo de adjetivos superlativos em todos os sentidos. São mais de duas horas e duração, canções das fases de maior apelo comercial do Pink Floyd (e algumas de Is This the Life We Really Want?, álbum que o músico lançou em 2017), banda afiada, um telão de LED de 28 metros de largura e cenários móveis que reproduziam discos clássicos do quarteto inglês como Animals (1977) e The Wall (1979). O périplo durou dois anos e contabilizou 156 shows para um público estimado em 2,3 milhões de pessoas. As imagens desse filme foram captadas em Amsterdã, na Holanda, mas elas se adequam a qualquer lugar para onde Waters levou sua trupe. A maioria dos espectadores é composta por jovens, que nem sequer existiam na época em que o Pink Floyd e Waters lançaram seus discos mais significativos, contudo abraçam com fervor as letras do inglês. Nada mais natural: mensagens contra a ganância, o distanciamento social e o preconceito ainda fazem sentido nos dias de hoje.



As posições políticas de Waters são legítimas, ainda que muitas vezes pequem pela ingenuidade. Ele tem o mérito de ser ser uma das vozes mais contundentes contra o governo de Donald Trump, porém seu conhecimento de política internacional é praticamente nulo. Certa vez, saudou o "bravo povo da Venezuela" por resistir ao golpe de estado patrocinado pelo governo americano, quando na verdade a população tinha se rebelado contra o ditador Nicolás Maduro, a quem Waters pensa ser um bom governante. Sua implicância contra Israel beira o antissemitismo (aliás, um dos grupos apoiados pelo cantor é assumidamente anti-semita) e afirmou que seu último lançamento tinha sofrido censura nas letras por parte de sua gravadora. Culpa dos judeus, claro. O libreto de Ça Ira (2005), ópera que escreveu sobre a Revolução Francesa, é tão tatibitate que parece escrito por um aluno ruim de história da França - no final das contas, o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta eram dois serem malvados que riam da situação de penúria que assolava o povo. Waters também sabe como poucos aproveitar uma situação de instabilidade política. Na bateria de entrevistas que deu no Brasil para anunciar a turnê, no final de 2017, perguntou a alguns jornalistas o que eles achavam de ele pichar um "Fora, Temer!" num dos três porcos infláveis que sobrevoam o público na hora do espetáculo. No final, Temer foi substituído por insultos a Bolsonaro. A homenagem a Marielle, no entanto, se mostrou justa e oportuna.

Mas Roger Waters é um grande idealizador de espetáculos. Baixista competente e um cantor expressivo, reúne sempre um time de ótimos instrumentistas (e cantoras, vide os solos de voz de Jess Wolfe e Holly Laessig, do grupo de indie rock Lucius, em The Great Gig in the Sky), que recriam os hinos do Pink Floyd à perfeição, e cenários que causam impacto. Quem assistiu The Wall certamente se lembra do avião que sobrevoava a plateia durante In The Flesh, a canção de abertura do álbum homônimo. Us + Them tem um palco mais, digamos, limpo, mas possui seus momentos impressionantes. Como a réplica da Battersea Power Station durante a execução das músicas de Animals ou o desfile das crianças submetidas vestidas como prisioneiras de Guantanamo, que protestam contra a repressão em Another Brick in the Wall Part 2. São dezessete canções do Pink Floyd e quatro de Is This the Life We Really Want?, que se enquadram no repertório de protesto do músico inglês. E, sim, poucas vozes ele foi retratado de forma tão primorosa: os closes do baixo Fender, lendário parceiro de vídeos do Pink Floyd, o ar de alegria que toma conta de sua face carrancuda nos momentos mais políticos do show, os momentos de descontração ao lado dos corais de estudantes... tudo captado com precisão pelas lentes de Evans. E nos momentos atuais, suas preocupações sociais se mostram legítimas. Enquanto uns falam em gripezinha, ele defende isolamento lançando vídeos de canções antigas de seuy ex-grupo (caso de Two Suns in the Sunset, de 1983) Roger Waters é um artista à prova de mito.



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