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  • Sérgio Martins

Sertanejo e axé: o que podemos aprender com esses gêneros


Numa das muitas conversas que tive com Carlos Graieb, então meu editor executivo em VEJA, ressaltei a necessidade de cobrirmos gêneros musicais populares, de preferência saindo do eixo Rio-São Paulo. O detalhe principal é que essas reportagens teriam de ir além da visão crítica – e às vezes preconceituosa –, tão comum nos veículos das chamadas grandes mídias, e dissecar o motivo do gênero A ou B ser um fenômeno de massa. A ideia rendeu matérias das quais me orgulho muito, como as do sertanejo universitário, do arrocha, da axé music e do funk carioca. Sair da zona de conforto, entrevistar essas duplas/cantores, sentir a vibração do público, muitas vezes nos faz entender melhor por que decidimos ser jornalistas musicais. Pois o documentário Amor Sertanejo, em cartaz desde o final de abril nas plataformas Now, Google Play, iTunes e Vivo Play, tem ponto de partida semelhante: destrinchar esse subgênero, que parece uma reciclagem da jovem guarda, e ilustrar as razões de sua popularidade. Os cineastas Fabrício Bittar e Raphael Erichsen, contudo, foram ainda além ao mostrar o investimento milionário feito na criação de novos artistas e por que muitas vezes ficam no meio do caminho, sem atingir o estrelato.



“Não queríamos ser mais um documentário sobre a história do sertanejo”, diz Bittar. “Ela só estaria ali para situar o espectador que não estivesse familiarizado com o tema. Mas durante o processo foram surgindo tramas interessantes que nos levaram a explorar assuntos que não tínhamos pensado antes”. Amor Sertanejo cumpre uma função didática ao falar das origens da música caipira, de seus primeiros registros fonográficos e da explosão do gênero na virada dos anos 80 para os 90, quando se associou ao rock e à música chamada brega para estourar nas vozes de Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. Passa então para o surgimento do sertanejo universitário, na segunda metade dos anos 2000, quando João Bosco & Vinícius (foto acima) e César Menotti & Fabiano lideraram uma nova retomada do gênero – que então tinha perdido espaço para a a axé music e o rock – ao conquistar o público das festas de universidades. Um dos momentos mais elucidativos é quando Sorocaba, mentor da dupla Fernando & Sorocaba, comenta a mudança de assuntos nas letras – saem as dores de amores e entram as gírias modernas ou sonhos românticos com cidades como Madri.

“O papo mudou”, me disse certa vez o mesmo Sorocaba. Não foi apenas o papo, mas sim a maneira de fazer negócios. A indústria sertaneja, com o passar dos anos, agregou ao gênero todas as novidades musicais: o pop, o funk, a música eletrônica. Hoje, por exemplo, o DJ Alok é presença carimbada em festas da turma de bota e chapelão e pertence a um escritório ligado ao sertanejo. A indústria caipira importou a empolgação da axé music e seu know how de fazer festas ao redor do país e ainda assimilou o mercado de CDs piratas, típicos da região norte. O artista sertanejo passou “presentear” fãs, radialistas e jornalistas com versões mais baratas de seus próprios discos. Isso era comum no mercado do tecnobrega paraense, onde sistemas de som chamados aparelhagens fabricavam discos contendo a trilha de suas festas e vendiam nos mercados populares da cidade (é também comum no Recife). O cantor, acreditam, ganharia com os shows.

Mas se Bittar e Erichsen procuram entender o boom sertanejo, mostram também que a busca pelo sucesso muitas vezes é cara e improdutiva. Trazem à tona a figura do “investidor”, o sujeito que banca uma dupla ou um cantor sertanejo com milhões em busca de rendimento imediato, o esquema com rádios e a impulsão desses nomes nas redes sociais. Para cada Luan Santana, entrevistado para o documentário, existe uma centena de outros artistas buscando sua chance de se tornar ídolos. Eles, aliás, estão presentes em Amor Sertanejo através de duplas iniciantes e compositores. Um filme essencial para quem quiser entender como funciona a indústria de bota a chapelão.



Axé – Canto do Povo de um Lugar (2016), é um ótimo aquecimento para Amor Sertanejo. Não pelos estilos, claros, mas por contar a história de outro gênero musical que ultrapassou as fronteiras de onde foi criado e se tornou o principal estilo de consumo de um país. O documentário de Chico Kertész, que deve estrear na Netflix depois de uma temporada na Globoplay, foca mais no lado musical: se propõe a falar do gênero como um todo e não se limitar a apenas uma vertente. Nesse ponto, é uma espetacular aula de música. As raízes da axé music estão no trio elétrico. Kerstész mostra como o frevo eletrificado daquelas aparelhagens ganhou voz e corpo na figura de Moraes Moreira, que letrou Código Morse, então uma canção instrumental do Trio Elétrico de Dodô & Osmar, e a transformou no sucesso nacional Pombo Correio. Moreira também foi o primeiro cantor de trio, o que contribuiu para a popularidade do carnaval baiano.


Kerstész é carinhoso com cada aspecto da axé, rótulo que nasceu em ritmo de troça – era um termo pelo qual o jornalista Hagamenon Brito chamava, desdenhosamente, os grupos pop de Salvador dos anos 80. O estilo ganhou sua primeira projeção nacional com Luiz Caldas (foto), em 1985, mas vinha há tempos sendo gestado nas ladeiras da cidade, através dos blocos de samba-reggae, batida criada por Neguinho do Samba. O batuque, aliás, deu sobrevida ao gênero quando o fricote de Caldas perdeu a força. E foi através dele que os blocos carnavalescos floresceram, adaptando suas canções para um formato pop.

A principal explosão da axé music se deu com Daniela Mercury, em 1992. O show da baiana no vão livre do Masp, quando o museu quase cedeu por causa dos pulos do público, marca um novo momento para esse estilo. Daniela foi mais além: definiu a persona da cantora de trio elétrico - Ivete Sangalo, Claudia Leitte ou qualquer outra intérprete que seja trazem um pouco de Daniela em seu DNA. Pessoalmente, adorei o fato de Kerstész dar destaque para Robson e Marcia Short, da Banda Mel, os melhores intérpretes de axé music que assisti num palco. O passo seguinte foi a exportação do know how da alegria baiana nas chamadas Micaretas, os carnavais fora de hora, que o tornaram um gênero único.

A axé music sucumbiu no final dos anos 90 e sua derrocada coincide com o aumento de popularidade do sertanejo. Kerstész dá uma série de pistas, como briga entre empresários e esgotamento do processo criativo de seus compositores. O cineasta prefere que o público tire sua própria conclusão, mas aponta um futuro na voz de Saulo, recentemente saído da Banda Eva. A volta às raízes e ao desprendimento, para Kerstész, funcionaria melhor que o pensamento macro do sertão. Que o espectador tire suas conclusões, mas que não perca esses dois documentos populares.

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