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  • Sérgio Martins

Thiago Pethit: "Enquanto estivermos vivos, seremos afetados"


Thiago Pethit é papo de horas. Em nosso último encontro, realizado meses atrás numa cafeteria no centro de São Paulo, fomos da qualidade do seu trabalho autoral até música erudita, passando por uma análise da cena independente paulistana. O papo seria a porta de entrada de uma futura matéria, que ainda será realizada. Pethit é o tipo do autor que só lança discos quando tem o que dizer. Economicamente, pode aré ser um tiro no pé. Porém, artisticamente faz toda a diferença. Mal dos Trópicos (Queda Ascensão de Orfeu da Consolação), lançado no ano passado, é um álbum de fôlego, com inspirações que vão da mitologia grega ao universo erudito. Com vocês, Thiago Pethit.







O que você anda escutando nesse período tão estranho para todos nós? 

Minha escuta não mudou tanto nestes tempos. Embora o tempo de escuta é que tenha ficado mais longo.  No primeiro mês de confinamento a música começava a tocar junto do café no fogo e só parava ao deitar na cama. Mas notei duas coisas interessantes: a primeira, é que não consegui ouvir nenhuma novidade (lançamentos ou coisas inéditas apenas para mim). A segunda, que estou muito acostumado a viver isolado em casa. E em situações como essa, onde a vida toda acontece somente em casa, fica difícil ouvir coisas que possam interferir demais no humor. Nem ser mais barulhenta que os meus pensamentos e preocupações, tão pouco derrubar à uma certa letargia. E por isso tudo, logo nos primeiros dias de quarentena, meus amigos quase todos me procuraram para saber o que eu poderia indicar de músicas eruditas e coisas assim. Que eles nunca tinham dado bola ou que até faziam de piada comigo. Chopin, Debussy, Kurt Weill, Cole Porter...eruditos ou jazzísticos que tornam meus dias aqui menos turbulentos.







Você ainda encontra inspiração para produzir ou se dedica a outras atividades?  Para produzir, nenhuma. Inspiração e produção não necessariamente andam juntas, né? Certamente há algo de inspirador neste momento. Mas pra mim é como se a experiência estivesse ainda longe do ponto final. Ou longe de quando conseguimos significar ou simbolizar uma inspiração a ponto de produzir algo. É um momento único e surreal para o mundo todo. Acredito que parte da produção é apenas sentar e observar. Assimilar. Deixar viver. Deixar os dias passarem. Sentir o que acontece quando nada acontece ou quando morre um conhecido. A inspiração vem dessa experiência. Estou mais experientando do que produzindo. Por outro lado, tenho dado aulas online: de canto, oratória e apresentação. E quando não estou dando aulas, estou estudando piano. Passo a maior parte do tempo sentado no piano praticando. Quando vejo, já é noite. Aprender piano virou meu grande norte para ultrapassar esses dias. Mas não chamo de 'produção' porque não tem um ponto final onde queira chegar ou nem uma razão pra isso. Não é que eu tenha a pretensão de utilizar isso adiante. Pelo menos, não ainda. Nada "adiante" ainda me parece possível.

O período pelo qual estamos passando irá afetar a tua maneira de compor?   Certamente. De compor, de criar, pensar. Cada tempo, cada vivência... se traduz em novas possibilidades. Sempre. Enquanto estivermos vivos, estaremos sendo afetados.




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