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  • Sérgio Martins

Um drible da vaca em ritmo de dub


Quem não gosta de futebol não entende o porquê da nossa paixão por esse esporte, no qual 22 marmanjos disputam, de forma renhida, uma bola de couro com o intuito de enfiá-la numa rede de seda sintética. Debocham da nossa empolgação pelo lançamento milimetricamente colocado no pé do atacante, da troca de passes que se assemelha a um balé e da jogada que resulta no gol, causando a alegria do time de nosso coração e frustração da equipe adversária. O reggae, mais especificamente o dub, com sua faceta mais lisérgica e canábica, causa a mesma quantidade de narizes torcidos. Se o gênero já é injustamente acusado de ser “tudo igual”, o que dizer dessa subversão da canção, que é torcida, retorcida, e ganha efeitos especiais? Mas o dub, assim como o futebol bem jogado, é uma ciência. Existe uma lógica, uma sensibilidade extra para virar essas músicas do avesso para que aguce os sentidos de quem a escuta. Nessa categoria, Futuro Dub, do BaianaSystem, tem a beleza e a gaiatice do drible da vaca, a “entortada” eternizada por Roberto Rivelino nos anos 70. É uma parceria do grupo soteropolitano com Buguinha Dub


O reggae é um dos muitos elementos musicais que cabem na receita do BaianaSystem, uma das principais bandas surgidas no cenário musical brasileiro dos últimos anos, um combo onde o samba de roda casa com o arrocha, o raggamuffin combina com a percussão afro, o trio elétrico – principalmente por conta da guitarra baiana tocada por Roberto Barreto – se une ao rock. O Futuro não Demora, seu mais recente álbum, lançado na segunda quinzena de 2019, reafirma sua condição de geleia geral brasileira, ao trazer para roda nomes como a dupla Antônio Carlos & Jocafi, o popstar francês Manu Chao e o cantor e baterista Curumin. Já Buguinha Dub é um engenheiro de som consagrado, tendo trabalhado ao lado de Racionais MC’s, Nação Zumbi e Lucas Santanna, entre outros nomes expressivos da música brasileira. Em Futuro Dub, a tabelinha soa perfeita.

Buguinha desacelera o ritmo frenético do BaianaSystem, mas não lhe tira a pulsação, muito menos a força de seu discurso. Estão ali o “a justiça é cega”, proferido em Sulamericano (que aqui, como em todas as faixas, foi acrescido de um Adubado ou Adubada no título) ou o canto das crianças em Saci (Adubado). O baixo gordo de Sekko Bass (aliás, a estrela do disco) ganha força, como em todo dub que se preze, circundado pela guitarra de Barreto e pela percussão. São belas as costuras do guitarrista em Bola de Cristal (Adubada), que lembra a ju ju music africana, e a batida do samba-reggae em Navio (Adubado). O ijexá, que era um detalhe na gravação original de Salve, dita o ritmo na sua versão adubada, ao lado de um festival de ecos. Buguinha, na condição de “dubeiro”, está mais próximo da versão inglesa do estilo, com seus efeitos especiais e teclados espaciais, do que a jamaicana. Seu dub 2.0 é nítido nos experimentalismos presentes em Redoma (Adubada) e Saci (Abubado). Futuro Dub é um disco que aguça os sentidos e traz a calmaria nesses tempos de confinamento. Uma tabela perfeita, um golaço num Ba-Vi valendo o título.

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