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  • Sérgio Martins

Um Jesus humano e ao som de rock





Quando entrevistei o letrista Tim Rice anos atrás, perguntei se algumas de suas criações causaram polêmica entre o público. Eu queria que ele discorresse sobre Evita, outra de suas parcerias ao lado do compositor Andrew Lloyd Webber, no qual a ex-primeira dama argentina e seu marido, Juan Carlos Perón, eram vistos como um casal de trapaceiros. "Sim, os argentinos reclamaram, mas nem chegou perto do que fizeram com Jesus Christ Superstar", confessou o compositor. "Em Buenos Aires houve até ameaça de bomba". É compreensível que a visão de um Jesus Cristo deslumbrado com seu "sucesso" e um Judas Iscariotes que atua como a consciência do Nazareno, bem como uma Maria Madalena que dá pistas que sua relação com Jesus possa ter ido além das parábolas e ensinamentos, cause um sentimento de indignação num devoto mais carola. Jesus Christ Superstar, contudo, está entre os melhores musicais da segunda metade do século XX e uma feliz na adaptação dessa linguagem para o universo do rock. Ele será exibido na íntegra às 15h dessa sexta-feira, dia 10, e ficará disponível gratuitamente pelas próximas 48 horas. É uma oportunidade e tanto para se despir de preconceitos e alimentar o espírito com boa música.


Jesus Christ Superstar nasceu inicialmente como um álbum de Webber e Rice para contar a última semana de vida de Jesus. Para o papel principal, o escolhido foi Ian Gillan, do Deep Purple, que encantou a dupla com sua performance no Concerto para Grupo e Orquestra, um cruzamento de rock e música erudita engendrado por Jon Lord, tecladista da banda. O sucesso do projeto despertou a ideia de levá-lo para os palcos, inicialmente em forma de concerto e depois como um musical propriamente dito. Gillan, porém, não quis prosseguir com Webber e Rice. "Trabalhar num espetáculo desse tipo me obrigaria e repetir a mesma coisa todas as noites. E eu odeio fazer isso", me disse, numa entrevista dois anos atrás. Jesus Christ Superstar debutou na Broadway em julho de 1971, num período fértil para experimentos com o rock e religião. A produção foi precedida por Godspell, de Stephen Schwartz, no qual um amontoado de hippies declamavam textos do Novo Testamento ao som de pop. O terreno semeado pelas produções modernas não impediram que Superstar fosse mais malhado pelos religiosos do que Judas no Sábado de Aleluia. Tim Rice ajudou a coloca na fogueira ao definir o Nazareno não como Deus, mas "o homem certo, na hora e nos lugares certos". Dois anos depois, a criação de Webber e Rice chegou às telas de cinema, na que eu considero sua melhor escalação: Ted Neely como Jesus e Carl Anderson, um soulman de fina estampa, como Judas. Uma curiosidade: entre os candidatos ao elenco do filme, estava um jovem chamado John Travolta. Ele não passou no teste, mas encantou tanto o produtor do filme, Robert Stigwood, que este lhe prometeu um filme para chamar de seu. A promessa - cumprida, claro - se chamou Os Embalos de Sábado à Noite.





Jesus e Judas são personagens dificílimos de serem interpretados porque exigem uma grande extensão e uma interpretação muito abrangente, típicas do rock e do soul. "Jesus tem mais extremos, mas o Judas exige mais do intérprete", diz o catarinense Alírio Neto, que viveu os dois papéis no palco. "Tanto que mudei a cor da minha voz". O desafio maior de Jesus é Gethsemane, no qual Ian Gillan dá todos os gritos e agudos que fizeram sua fama no Deep Purple. "Criei um patamar de interpretação difícil de ser superado", jacta-se.






A versão que será exibida no YouTube é de 2012 e traz como destaque Mel C, das Spice Girls, como Maria Madalena, e Tim Minchin, autor do premiadíssimo musical Mathilda na pele de Judas. Ben Daniels, o Jesus, ganhou papel numa espécie de reality show e até que tem feito uma boa carreira no teatro musical. Atualmente, ele vive o Fantasma da Ópera na encenação do West End londrino. Em 2013, o diretor Jorge Takla levou Jesus Christ Superstar para os palcos paulistanos. Igor Rickli foi Jesus, Negra Li viveu Maria Madalena, mas quem roubava a cena eram o Judas headbanger de Alírio Neto (foto) e um Pilatos à beira do escracho vivido por Wellington Nogueira, da ONG Os Doutores da Alegria. A peça causou furor, ainda que tenha sofrido intolerância. "Era difícil conseguir patrocínio, houve protesto de religiosas na porta do teatro", lembra Takla. É falta de Jesus Christ Superstar no coração...


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