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  • Sérgio Martins

Uma maestrina boa de jazz e de briga


Nos bastidores da edição de 2007 do festival Tudo é Jazz, de Ouro Preto, uma americana franzina e sardenta ouve atentamente os queixumes da intérprete do evento sobre os maus bofes de uma das atrações. O sujeito, entre muitos outros atos inomináveis, se recusou a pagar a altíssima conta de telefone que deixou pendurada na pousada na qual estava hospedado. "Você tinha de deixar este rapaz comigo", diz a americana. "Certa vez, na Holanda, ele tentou maltratar a orquestra que eu estava regendo e o coloquei em seu devido lugar", confessou. A moça franzina é corajosa era nada menos que Maria Schneider, um dos maiores nomes do jazz contemporâneo das últimas três décadas e dona de uma orquestra de sopro que leva o seu nome. O solista era... bem, o sujeito já morreu e não convém falar mal de quem não pode se defender. A notícia aqui é que Maria jamais deixou de lutar, principalmente quando a causa envolve os direitos de sua classe. Sete anos atrás, ela iniciou uma aguerrida batalha contra as plataformas de streaming e sua remuneração, que considera injusta demais para os músicos. "Uma situação que tem piorado nos tempos de pandemia", aponta. Maria, que se recusa a disponibilizar seus álbuns nesses locais, acabou por usá-los como fonte de inspiração. Lançado em julho do ano passado (e que por capricho do correio e da receita federal chegou em minhas mãos somente na segunda quinzena de março), Data Lords é um protesto contra a indústria em forma de disco.




Maria Schneider (nada a ver com a atriz de O Último Tango em Paris), 60, é uma revolucionária do jazz. Nascida em Windon, cidade do estado americano do Minnesota, ela iniciou seus estudos de piano aos cinco anos e três anos depois criou sua primeira composição. Tentou ser clarinetista e violinista, mas optou por fazer da orquestra seu instrumento principal. Formada em teoria musical pela Universidade de Minnesota e dona de um mestrado em música pela Escola de Música Eastman, de Rochester, no estado de Nova York, ela trabalhou ao lado do maestro canadense Gil Evans (1912-1988), que tem, entre muitos outros feitos, uma parceria artística vitoriosa com o trompetista Miles Davis (1926-1991). Maria trabalhou como copista e ghost writer de trabalhos como a trilha sonora de A Cor do Dinheiro, de 1986, e da turnê de Evans com Sting. Em 1992, formou a orquestra de jazz que leva o seu nome.



A Maria Schneider Jazz Orchestra é um combo de dezessete instrumentistas, onde boa parte das cordas foram substituídas por instrumentos de sopro. Uma combinação das formas jazzísticas e eruditas, que mudou substancialmente sua maneira de tocar após uma visita do grupo ao Brasil, em 1998, quando tocou no Free Jazz Festival. A turnê inspirou a canção Hang Gliding, que nasceu após um voo de Maria de asa delta, mas também alterou a forma da maestrina de compor. "Sou uma outra criadora após a minha visita ao Brasil", disse. Há ecos de Egberto Gismonti em Aires de Lando, canção do álbum Sky Blue, de 2007, e poemas de Carlos Drummond de Andrade em Winter Morning Walks, de 2013, além de participações da cantora paulistana Luciana Souza no álbum Concert in the Garden, de 2004. Já Thompson Fields trazia em sua versão online uma releitura de Lembra de Mim, do compositor carioca Ivan Lins. O amor pela música brasileira causou até uma certa polêmica: alguns críticos notaram a semelhança dos arranjos de Sue (Or in a Season for a Crime), sua parceria com o popstar inglês David Bowie com Cais, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos - algo que ela nega veementemente.






A preocupação com a classe musical sempre fez parte do cotidiano de Maria, mas se tornou mais frequente a partir dos anos 2000. Ela se associou à Artistshare, uma companhia que comercializa seus álbuns a partir da colaboração entre artistas e seu público. Por exemplo: na ocasião do lançamento de Concert in the Garden, todos os que compraram o álbum foram catalogados pela empresa. Quando Maria iniciou as sessões de gravação do que se tornaria Sky Blue, esses fãs foram convidados a colaborar financeiramente para o projeto - que poderia ser adquirir o álbum antecipadamente a gastar somas mais generosas, que renderiam uma visita aos estúdios de gravação, um jantar com a banda ou ter seu nome incluído na lista de produtores executivos. A maestrina tinha a preocupação de fazer newsletter semanais para informar em que pé estava o projeto.



Data Lords também nasceu dessa maneira: bancado pelos fãs das criações da maestrina e com a preocupação de uma justa remuneração para os músicos. É um álbum duplo, dividido em duas partes, e que traz um protesto contra a Big Data, que trabalha com armazenamento de dados, e contra as plataformas de streaming. Dividido em duas partes, ele vai de melodias entortadas por uma guitarra distorcida (onde o instrumentista Ben Monder dá um show à parte) até canções suaves e pastorais. Digital World, o primeiro álbum, traz uma visão sombria do mundo, enquanto que Natural World oferece esperança. Há passagens como A World Lost, inspirada no trânsito infernal de Nova York, ou CG, Is There Anybody Out There, que tem o código morse como tema. O contraste se dá em criações como Sanzenin, que nasceu após uma visita dela aos jardins japoneses, ou até mesmo uma peça de cerâmica localizada em cima do piano de Maria - a delicada Stone Song. Embora não tenha mostrado força suficiente para mudar a remuneração dos músicos pelas plataformas de streaming, Data Lords mostrou sua força na indústria: recentemente foi agraciado com o Grammy de melhor disco de jazz. Como se pode notar, Maria é boa de briga.





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