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  • Sérgio Martins

Violino, judaísmo e amizade


Dentro de um abrigo inglês da Segunda Guerra Mundial, as pessoas que ali estão por um momento deixam de temer a possibilidade de serem destroçadas pelas bombas alemãs para escutar um belíssimo solo de violino, executado por um estudante de música. Pouco tempo depois, outro violinista, um pouco mais jovem, se une ao primeiro solista, mas sua postura não é conciliadora e sim como se estivesse num duelo. Dovidl Rappaport, o tal garoto, quer mais do que mostrar sua destreza: deseja triturar seu oponente e assim marcar sua posição como talento prodígio. Filho de judeus poloneses, ele é criado sob a tutela de uma família inglesa, a quem viria trair posteriormente. Em 1951, às vésperas de um concerto que iria consagrá-lo no meio erudito, ele some sem dar maiores explicações. O ato causa a ruína financeira dos seus mecenas e uma cicatriz profunda em Martin, filho do casal, com quem Dovidl havia criado laços profundos de amizade. Mais de três décadas depois, ao participar como jurado de um concurso de jovens talentos, Martin reconhece num jovem candidato o mesmo estilo Dovidvl que tinha. Parte, então, em busca do amigo desaparecido. A história dessa amizade, bem como o inexplicável sumiço do instrumentista são o mote de O Cântico dos Nomes, drama estrelado por Tim Roth e Clive Owens. Baseado no livro do de Norman Lebrecht, ele chega ao Brasil através das plataformas Looke, Now e Apple TV.

Cântico dos Nomes foi o primeiro romance de Lebrecht, um jornalista acostumado a dissecar a obra do compositor austríaco Gustav Mahler e de escarafunchar a vaidade de regentes e músicos eruditos - O Mito do Maestro, seu livro sobre os bastidores da regência, é item obrigatório. Há muito dos segredos desse universo, bem como do judaísmo. Dovidvl, a princípio, renega a sua fé e sua origem, mas elas voltam a atormentá-lo quando ele descobre que sua família - que ficara na Polônia - fora dizimada nos campos de concentração. A tal "culpa do sobrevivente", além de outros traumas, atormentarão Dovidvl. O filme, dirigido por François Giraud (de O Gênio e Excêntrico Glenn Gould em 32 Curtas e O Violino Vermelho) carece da emoção do romance que lhe deu origem - o reencontro entre os dois amigos (não é spoiler, a gente sabia que aconteceria a qualquer momento). Por outro lado, acerta na relação de Martin e Dovidvl, que a princípio é ameaçada pelo ressentimento do primeiro, que tem seus privilégios castrados em favor da jovem promessa erudita.

Dovidvl é vivido na infância e na adolescência de maneira brilhante por Luke Doyle e Jonah-Hauer King. Clive Owen, com uma barba falsa de causar inveja de figurante em série bíblica, o interpreta na idade adulta. Ator excepcional, seu olhar e sua voz cansada passam toda a dor que consome a alma de Dovidvl. Mas é Tim Roth quem brilha nesse duelo de grandes atores. Seu Martin, que começa o filme brincando de detetive, carrega uma agonia e um desespero que explodem como poucos nos momentos finais. Uma bela história sobre amizade, ainda que a dor dê o tom.



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